Copa e eleições: um desgaste emocional

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*por Fernando Rizzolo

Quando, no ano passado, milhares de pessoas saíram às ruas em São Paulo para protestar contra os gastos públicos, os esbanjamentos na construção dos estádios – que o governo insiste em chamar de “arenas” – e gritar contra a corrupção, tudo isso foi cansativo, não só para quem participou, mas também para quem assistiu aos protestos pela imprensa. Já neste ano, a expectativa desta que foi chamada de “Copa das Copas” também trouxe uma enorme carga emocional desgastante em virtude, é claro, da derrota da nossa Seleção.

Por mais que se critique o evento esportivo no Brasil, como eu e muitos outros fizemos, as pessoas acabam torcendo. Comigo não poderia ser diferente, mas confesso que senti até um alívio quando perdemos. Aos poucos percebi que aquilo estava me fazendo mal. Entre uma pipoca e outra, ficar ali e olhar aquela truculência, aquele circo anestesiante, me fez, ao fim do jogo, sentir que minha energia era absorvida, ganhando ou perdendo. Procurei entender o porquê, para não me julgar “um chato de galochas”, daqueles que não participam e não extravasam o patriotismo nem em Copa do Mundo, mas tentando fazer uma reflexão sobre como viver num país pobre, com tantos problemas, de modo que até o circo acaba cansando.

Muitas vezes pensei em qual seria o tema do meu próximo artigo, mas não vinha nada à mente; apenas os estádios caros, minha imagem anestesiada pelo jogo torcendo, mesmo sabendo que chega a ser revoltante ver aquelas “arenas” que não servirão para mais nada daqui pra frente. Senti um verdadeiro apagão inspirador no país onde houve, segundo o técnico Felipe Scolari, uma “pane” nos jogadores. E assim, percebi que, por alguns instantes, do ponto de vista literário, também havia sofrido esta pane.

Agora virão as eleições, começará tudo de novo, o horário eleitoral, as promessas vazias, as velhas figuras políticas explorando a miséria e trazendo um discurso mais esportivo, motivado pela Copa. É provável que muitos desses figurões critiquem os jogadores, para não trazer à baila a discussão sobre, é claro, o custo das “arenas”. E então, já sei, voltará o cansaço, a mesmice, e tenho certeza de que terei de descansar. Desta vez não vou viajar para longe, ir ao exterior. Agora pretendo ficar por aqui, quero ir para Minas Gerais. A propósito, descobri o porquê disso: toda vez que escrevo tomo muito café, aquele café mineiro com cheiro de bule, e aí eu sonho com interior, fogão à lenha, cidadezinha de Minas… Como nunca fui ao interior de Minas, esse acaba sendo meu refúgio emocional… O lugar calmo, sem passeatas, sem “arenas”, só fogão à lenha e cafezinhos… Será que existe mesmo essa cidade? Esse “trem bom”????? Ou já estou na fase do Lexotan para me aliviar desse Brasil cansativo… de Copa e eleições…?

Da inflação para insatisfação

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*por Fernando Rizzolo 

Está claro que existem inúmeras formas de interpretar o porquê das manifestações ocorridas em todo o país. Podemos percorrer várias vertentes de análise, desde aquelas do ponto de vista social, psicológico, econômico e até a observação sob um viés psicanalítico. A origem dos protestos tem sido alvo de reflexões dentro do que podemos chamar de núcleo pensante da intelectualidade brasileira. Explicar fenômenos sociais teorizando-os de maneira simplista é um caminho perigoso e pouco abrangente.

Isto posto, vamos apenas nos aventurar a conjecturar sobre fatos que podem ter relação com o ocorrido. É importante salientar que os protestos não são elaborados, tampouco surgem das camadas mais pobres da população. Como todo movimento diante da história, este é oriundo da classe média estudantil, beneficiada com programas de acesso à universidade, que incluiu inúmeros jovens que, de certa forma, foram politizados pela informação digital, e acima de tudo jovens de uma geração despolitizada, trazendo no bojo de sua idealização a aversão ao partidarismo – seja ele qual for. Acredito, entretanto, que seja direcionado, em sua maioria, contra o Partido dos Trabalhadores, mais por mera insatisfação do que por ideologia.

É bem verdade que grande parte dos jovens filhos de petistas, que via seus pais no anseio de um Brasil melhor, empunhando bandeiras vermelhas, decepcionou-se com o PT. Para sublinhar uma posição pseudopolítica e contrária a de seus pais, esses jovens revoltam-se contra o atual governo; por outro lado, filhos daqueles que sempre odiaram o Partido dos Trabalhadores, e, ouvindo o destilar conservador da oposição, perpetuaram um ódio intrínseco, extravasado nesse momento, num grande brinde à despolitização e, para completar, uma manifestação da aversão a qualquer partido. Para estes, a democracia seria representada pelo mero ato de sair às ruas, e o Brasil, numa utopia, funcionaria ‘democraticamente’ sem as instituições ditas democráticas a garantir nossos direitos.

Mas não resta a menor dúvida de que o estopim de toda movimentação são a inflação, a volta do gasto público e a corrupção. Esses jovens foram formados para o questionamento de um modo que fogem à representatividade, fogem às formas tradicionais de liderança, isso fruto puro e simples da política assistencialista do governo, que oferece benesses por votos, dos mensaleiros impunes, dos gastos desnecessários em detrimento dos mais nobres interesse públicos, como investimentos na saúde e na educação.

Entender é difícil, mas desconfiar é fácil. Talvez o governo tenha demorado demais para desconfiar de que uma hora tudo tem seu limite, mesmo que o fim desse limite tenha assumido a forma de caminhada pelas ruas em vestes brancas num grito de paz….