Quando a política se sobrepõe à crise

A turbulência com uma eventual crise de recessão nos EUA, nos joga a repensar o desenvolvimento da economia brasileira com todas as suas variantes, uma delas, com certeza, é a questão energética. Não há como desvencilhar crescimento da economia sem energia suficiente, até porque, para nos blindarmos, necessitamos de uma mercado interno forte e isso demanda energia e consumo.

Numa análise mais delicada, a vulnerabilidade brasileira nesse aspecto não só passa pelo baixo nível dos reservatórios, mas por um problema maior, a disputa política, onde os interesses partidários se sobrepõem às questões emergenciais e técnicas. Assim foi a indicação do senador Edison Lobão(PMDB-MA) para o Ministério de Minas e Energia, um acordo para dar ” governabilidade”; contudo, parece que a sede do PMDB não para por aí, existe a disputa para os cargos de segundo e terceiro escalão.

A decisão do ministro de Minas e Energia, de nomear Márcio Zimmermann para o cargo de secretário-executivo, é louvável, ele é engenheiro, técnico do setor e ligado à ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o que nos leva a pensar que Dilma ainda tem influência de sobra no setor. Ademais, outros nomes não teriam o esteio técnico, e estariam vinculados a outros políticos que foram alvo de investigações.

As declarações de que o Brasil ainda não corre o risco de enfrentar um novo apagão, como o que ocorreu em 2001, são na verdade apaziguadoras num ano de disputa eleitoral, e na verdade, não condizem com a realidade; a situação é preocupante, com a agravante da questão da crise internacional; o próprio presidente da Associação de Investidores em Autoprodução de Energia Elétrica Mário Luiz Menel, afirma que, já operamos em ritmo de apagão, dando vazão ao sentimento do diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica, Jerson Kelman, que já sinalizara na direção de um racionamento de energia. Medidas técnicas já foram devidamente efetuadas. Importaremos 20 milhões de metros cúbicos dia de GNL – regazeificados nas unidades do Rio Grande do Sul e do Ceará – e, assim, teremos o necessário para gerar os 4.615,9 megawatts de energia requeridos pela demanda no segundo semestre deste ano.

A Petrobras esta desviando o gás que utiliza em suas unidades de refino para as termoelétricas e a de Cuiabá (MT), a gás, passa a ser movida a óleo passando dos atuais 195 MW para os 390 MW. Nossas térmicas tem capacidade de gerar 15,2 GW, dos quais, 10,8 GW a gás. Mas será o suficiente ? Até por uma questão de segurança nacional, temos que enfrentar um desgaste político, sim, mas necessário, sem eufemismos, e relançar o Plano de Racionalização do Uso de Energia, esquecido pela Eletrobras.

Na verdade, pouco importa a questão eleitoral, ou o preço político, temos que enfrentar a crise e jamais colocarmos o crescimento do país em situações de vulnerabilidade por questões decisórias e partidárias. De nada adianta o aumento dos custos da energia, e seus repasses ao consumidor, a racionalidade passa pelo racionamento de consumo e não pela disputa de poder partidário sem o menor esteio técnico e de responsabilidade, caracterizando um Estado estróina

É desalentador vermos o Brasil vivenciar crises de todo o tipo, e suas soluções passarem por interesses políticos, por cargos mercadejados, cujas nomeações podem nos levam a crises maiores ainda, envolvendo o desenvolvimento do país e as necessidades do povo brasileiro que ainda acredita na democracia representativa, que na realidade representa os interesses pessoais e por último os da Nação. Uma prova disso é a experiência na área de energia do Ministro senador Edison Lobão(PMDB-MA), quando afirmou peremptoriamente, ” Também não entendia de educação, de segurança, de agricultura. , Graças a Deus, fiz um governo no Maranhão (entre 1991 e 1994) muito elogiado. ” Quem diria, hein, o governo refém do PMDB, esse é o Brasil de Lula, ” o conciliador “. Aliás, em política o que te dizem nunca é tão importante quanto o que você ouve nem querer.

Fernando Rizzolo