Na Rocinha, Lula critica preconceito contra pobres

RIO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje, em discurso na inauguração de um centro esportivo da Rocinha, no Rio, que existem bandidos em favelas, mas também em outros lugares. “É verdade que na Rocinha deve ter algum bandido. É verdade que deve ter algum bandido no Pavãozinho. Mas quem disse que não tem bandido nos prédios chiques de Copacabana?”, disse Lula.

De acordo com o presidente, é grave o preconceito com os pobres. Ele considera que, quando as pessoas têm oportunidades, não seguem o caminho do crime. Lula afirmou que o centro esportivo gera possibilidade de crianças se afastarem das ruas e se tornarem atletas.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, lembrou que hoje é o Dia Internacional da Mulher e fez uma homenagem “às mulheres que lutam para manter seus filhos longe do tráfico e do crime”. Dilma foi muito aplaudida ao chegar à cerimônia e saudada com gritos de “Rocinha presente, Dilma presidente”.

No grupo de pessoas que saudava Dilma, muitos estavam vestidos com uma camiseta que foi distribuída no local com os nomes de Lula e o governador do Rio, Sérgio Cabral, na frente, e do vereador Claudinho da Academia atrás. O vereador foi denunciado pelo Ministério Público no início deste ano por suspeita de ter tido ajuda do tráfico na Rocinha em sua eleição.
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Rizzolo: O grande erro da sociedade é entender que nas favelas habitam apenas marginais. Essa é a essência do preconceito da sociedade contra os menos favorecidos, os pobres e os abandonados. É claro que o poder público tem a obrigação de punir o tráfico, a bandidagem, por outro lado existe também um contingente de mães, pais, que educam seus filhos nas favelas para que não caiam nas garras dos traficantes.

Isso se faz com inclusão, oportunidade, na luta contra a miséria e com um governo de viés inclusivo na promoção de projetos de inclusão. Agora que existe um enorme preconceito com aqueles que vivem nas favelas do Brasil não resta a menor dúvida, porém os grandes bandidos lá não estão e todos nós sabemos aonde encontrá-los.

Secretário nega excessos da polícia no Complexo do Alemão

Por Maurício Thuswohl, na Carta Maior

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A invasão das favelas do Rio de Janeiro, que deixou 19 mortos reúne 1.400 policiais e é considerada a maior do gênero no Brasil. O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, comemora resultados e diz que outros pontos da cidade poderão ser ocupados.

Pela primeira vez, depois de pelo menos uma década, as forças de segurança pública do Rio de Janeiro colocaram em xeque os traficantes que controlam o Complexo do Alemão, conjunto de favelas localizado na Zona Norte da capital. A poucos dias da operação de cerco e ocupação de parte da região completar dois meses, um efetivo de cerca de 1.400 policiais invadiu simultaneamente diversas favelas do complexo nesta quarta-feira (27), numa ofensiva que resultou em 19 mortos (número que ainda pode aumentar) e é apontada pelas autoridades como a maior ação policial conjunta já realizada no Brasil.

A invasão do Complexo do Alemão mobilizou 700 homens da Polícia Civil, 550 da Polícia Militar e 150 da Força Nacional de Segurança (FNS). Além da grande quantidade de policiais, e também de mortos, outros números resultantes da operação são elevados. Foram apreendidos 113 quilos de maconha, 30 quilos de cocaína, três quilos de crack (dois em pedra e um em pasta) e cem frascos de lança-perfume, além de mais de dois mil projéteis de calibres variados e de grande quantidade de pólvora e espoleta para fabricar munição.

A apreensão de armas foi ainda mais significativa: cinco pistolas, um revólver calibre 38, quatro morteiros, um lança-rojão, duas submetralhadoras e, para especial alegria dos policiais, duas metralhadoras antiaéreas calibre .30 de uso (que deveria ser) exclusivo das Forças Armadas. Segundo informes da Secretaria de Segurança Pública, essas metralhadoras já haviam sido usadas pelos traficantes para tentar abater helicópteros da polícia em incursões anteriores ao complexo.

O fato mais comemorado pelas autoridades, entretanto, foi a chegada da polícia a determinados pontos do Complexo do Alemão considerados inacessíveis há quase dez anos, como as localidades conhecidas como Areal, Matinha e Chuveirinho. Localizados nas proximidades da favela da Fazendinha, numa das áreas mais altas do complexo e onde os barracos se juntam ao que ainda resta de vegetação nativa na Serra da Misericórdia, esses trechos eram usados como quartéis-generais do tráfico e serviam para o armazenamento de armas e drogas.

Esses pontos concentraram o maior número dos mortos em confronto. Escoltados na subida pelos carros blindados da PM (os Caveirões) ao mesmo tempo em que cercavam as saídas pela parte alta do complexo, os policiais surpreenderam os traficantes, que não tiveram muitas oportunidades de fuga: “Foi igual a dar tiro em pato no parque de diversões”, resumiu um policial civil após a operação.

Os corpos de treze mortos foram recolhidos pela própria polícia, e seis outros foram levados em uma Kombi até a porta da 22ª DP (Penha). Um outro corpo, que pode ser o da vigésima vítima da invasão do Alemão, foi abandonado na manhã desta quinta-feira (28) em frente à outra delegacia próxima ao complexo, no bairro de Bonsucesso. Além dos mortos, todos apontados como traficantes, um policial levou um tiro e seis moradores ficaram feridos por balas perdidas. O comando da polícia admite a possibilidade de que outros corpos ainda estejam no alto dos morros.

“Polícia deve agir”

Segundo o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, todas as 19 pessoas mortas entraram em confronto direto com a polícia e, por isso, eram presumíveis traficantes. Até a tarde desta quinta, apenas sete das 19 vítimas haviam sido identificadas por parentes, fato que, por enquanto, reforça a tese da polícia de que os mortos eram “soldados” do tráfico sem vínculos diretos com a comunidade.

Em entrevista ao RJ-TV da Rede Globo, Beltrame negou que a polícia tivesse entrado para matar no Complexo do Alemão. “A polícia não vai a essas localidades para levar a violência. Ela vai para cumprir sua determinação constitucional e garantir os direitos, inclusive o direito de ir e vir, dos habitantes. O problema é que em alguns pontos do Rio de Janeiro a polícia é rechaçada com tiros quando tenta se aproximar. Nesse caso, a polícia não tem que reagir, ela tem que agir para acabar com o problema”, disse.

O secretário comemorou a falta de baixas no lado da polícia: “Quando a polícia atua com inteligência, de maneira planejada e organizada, é possível organizar operações bem-sucedidas como essa”. Beltrame também ressaltou à chegada dos policiais às “fortalezas” de Areal, Matinha e Chuveirinho: “Atingimos locais que não eram acessíveis para a polícia há bastante tempo. Agora, vamos intensificar nossa presença. O Estado tem que se fazer presente e libertar os moradores que vivem sob as leis do tráfico, num estado informal”.

Ainda falta muito

Apesar de impressionante, a quantidade de armas e drogas apreendida pelos policiais é pequena se comparada ao efetivo poder do tráfico no Complexo do Alemão: “O material apreendido é grande, mas sabemos que ainda tem coisa no local”, admitiu Beltrame. Para se ter uma idéia, o comando da PM acredita que os traficantes do complexo possuam um arsenal de 150 fuzis AR-15 e, entre outras coisas, mais seis metralhadoras antiaéreas calibre .30 iguais às apreendidas.

A principal preocupação da polícia nos próximos dias, segundo o secretário, é evitar que os bandidos tentem deixar o Complexo do Alemão para se abrigar em outros pontos da cidade: “Eles estão cercados e acuados. A presença policial vai continuar, para impedir a entrada e a saída de traficantes no complexo”, disse o secretário, que continuará a contar com a ajuda da FNS na ocupação.

Os possíveis esconderijos para os traficantes do Alemão em fuga seriam as favelas da Mangueira e do Jacarezinho, duas outras “centrais” do tráfico de drogas carioca também localizadas na Zona Norte da cidade. Empolgado com o resultado da operação em curso, Beltrame já admite, sem citar nomes, que essas comunidades também possam ser ocupadas no futuro próximo: “Nós planejamos executar operações semelhantes em outras áreas do Rio de Janeiro”, disse.

Agência Carta Maior
Site do PC do B

Rizzolo: Acho que a polícia agiu muito bem, na pessoa do secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Fica patente a ousadia de um grupo que pretende desafiar o Estado, é claro, que se existe narcotráfico , é porque não existe a presença do Estado sendo produto da miséria e da falta de oportunidade, contudo o Poder Público não pode ficar sendo disputado por grupos armados comandados por marginais, que podem muito bem amanhã ter conteúdo ideológico estranhos à democracia.

É impossível imaginar, que existam áreas consideradas inacessíveis há quase dez anos, como as localidades conhecidas como Areal, Matinha e Chuveirinho, trechos esses que eram usados como quartéis-generais do tráfico e serviam para o armazenamento de armas e drogas. Isso me lembra a China antes de Mao Tse Tung; é claro que depois dessa fase, é preciso levar depois recursos econômicos suficientes pra não deixar voltar o que era antes, senão esse sacrifício de agora não terá valido nada, terá sido absolutamente em vão

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, João Tancredo, baseado em relatos de moradores, disse que a polícia cometeu “um massacre de civis” durante a operação, precisamos ser cautelosos nessa questão, sou membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP , e pessoalmente parece que a polícia agiu com cuidado de praxe e costume, de qualquer forma tudo tem que ser apurado nas formas da Lei e com rigor, a população pobre não pode ser vitima da violência policial, o que me preocupa, é que a operação está sendo realizada bem às vésperas da abertura dos Jogos Panamericanos, o que pode dar a impressão de estar fazendo uma “higienização” no município em função do grande evento esportivo. Isto pode ser o ponto de partida para uma militarização conjuntural da cidade nos mesmos moldes instituídos durante a Rio-92. Truculência policial é uma coisa inadmissível, é só acontece aos pobres vítimas da ganância da elite.