O vestido rosa-shocking e os valores desfeitos

Foi a mistura de fatores, como a proximidade aos bares, o mau exemplo da televisão ou dos filmes violentos, o desejo interior de arruaça social ou o desrespeito à figura da mulher em relação à sua individualidade, que fez um grupo de jovens hostilizar a estudante de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo), num ato de vandalismo sem precedentes?

A verdade é que esse fato nos leva a uma reflexão sobre os reais motivos da conduta assustadora e sem sentido dos estudantes da Uniban, que fez a estudante de turismo sair escoltada por PMs da universidade para se proteger de cerca de 700 alunos “descontrolados”. A questão em si não está no vestido, na roupa, até porque, se assim fosse, vandalismos existiram nas praias, nos clubes, nas piscinas.

O que podemos inferir do caso em questão é que por trás daquele ato de selvageria existe um componente de agressividade gratuito, que tem, em essência, a certeza da impunidade, fazendo com que grupos de desordeiros passem a conclamar os demais estudantes a fazer parte de uma grande manifestação de revolta, cujo objetivo é a intimidação vazia, rebelde, que nos remete aos tipos de conduta de arruaça social política.

O vestido rosa-shocking, os estudantes, o tumulto, a participação da PM demonstram que os valores éticos de respeito à individualidade feminina se misturam aos conceitos prejulgados por grupos, que, de modo violento, tentam impor sua visão distorcida, preconceituosa e agressiva como forma de ditar regras que sempre foram balizadas pelo bom-senso e respeito ao próximo.

O conceito de que a democracia permite a livre manifestação de ideias de forma pública não se entende por estender tais ideias à restrição da liberdade da mulher, ao seu modo de se vestir ou agir, sob pena de estarmos nos voltando a um fundamentalismo moralista, extirpando das mulheres a liberdade de vivenciar um Estado Democrático de Direito.

O vestido de Geyse nos serve de alerta para repensarmos o papel da mulher no inconsciente juvenil, a conduta permissiva das universidades, que não dispõem do mínimo de segurança interna, da banalização da imagem feminina na mídia e, acima de tudo, dos efeitos dos bares próximos, que, com suas mesas regadas de cerveja, inundam o cérebro dos jovens, que, por mais das vezes, estão permeados de alto teor alcoólico e de pouco teor humanista.

Fernando Rizzolo

Uniban expulsa aluna que provocou reação de colegas ao usar vestido curto

Geysi usava trajes inadequados e apesar de alertada, não alterou seu comportamento, diz anúncio
Por meio de anúncio publicitário em jornais de São Paulo, a Uniban anunciou que a aluna do curso de turismo Geysi Villa Nova Arruda foi desligada da instituição. Segundo o informa, a aluna frequentou a escola “em trajes inadequados, indicando uma postura incompatível com o ambiente da universidade e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”. As informações são do site G1.

Geysi afirmou que nem ela e nem seus advogados haviam sido notificados da decisão. No final de outubro, a diretoria da universidade informou que havia aberto uma sindicância para investigar o tumulto na unidade paulista da instituição.

A Polícia Militar precisou ser acionada após a garota ser insultada por colegas. Segundo informações da polícia, o tumulto foi causado por uma aluna vestida com roupas inapropriadas.

zero hora

Rizzolo: Como se bastasse a violência que a aluna foi vítima, agora a instituição a expulsa legitimando a medida nos termos das agressões. Isso é um absurdo, um acinte à privacidade feminina, que deve ser rechaçada por todos na sociedade. Entender a postura dos críticos ao vestido de Gleyse, é chancelar o direito de censura aos mais diferentes tipos de vestimentas e comportamentos, como certos biquínis na praia, forma das mulheres cruzarem as pernas, decotes, e por ai afora. Como advogado, já me ofereci para custear sua defesa, é só a vítima entrar em contato comigo. Fico indignado com esse tipo de postura medieval, a inviolabilidade ao direito da mulher em se vestir, se expressar, e exercer sua feminilidade é sagrado, e deve ser respeitados por todos. Ou vivemos num país fundamentalista religioso?