Contra Record, Globo ignora a própria ‘cartilha’ monopolista

O jornalista Eliakim Araujo, em sua coluna no site Direto da Redação, ataca a discurseira da TV Globo contra práticas da Record. “Novo paladino da moral e dos bons costumes, a emissora da família Marinho prefere ignorar que o Jornal Nacional já foi usado inúmeras vezes com o mesmo objetivo”, afirma. Confira abaixo trechos do artigo.

Interesses particulares e inconfessáveis

Por Eliakim Araujo

Estive em São Paulo semana passada para a inauguração do Record News, o primeiro canal de notícias 24 horas em TV aberta. O sucesso do evento foi tão grande quanto a repercussão que causou o discurso do presidente do Grupo Record, Edir Macedo, ao afirmar que “durante muito tempo fomos reféns de um grupo que mantém o monopólio da informação. Nós queremos acabar com esse monopólio”. Não citou a Globo, nem precisava.

A partir daí e de uma informação do jornalista Josias de Souza, da Folha, sobre manobras de um executivo da Globo em Brasília que tentou impedir a presença do presidente Lula no evento, denunciando uma suposta ilegalidade do novo canal, a guerra estava deflagrada, com acusações de parte a parte.

Chamou-me a atenção nesse tiroteio de notas e editoriais a da Central Globo de Comunicação que acusa a Record de usar “suposto espaço jornalístico para a defesa de interesses particulares e inconfessáveis”. Novo paladino da moral e dos bons costumes, a emissora da família Marinho prefere ignorar que o Jornal Nacional já foi usado inúmeras vezes com o mesmo objetivo.

Os que têm boa memória hão de se lembrar da campanha cerrada do Jornal Nacional contra o então ministro da Justiça do governo Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, que ousou impedir a liberação de uma carga de equipamentos destinados à TV Globo. Durante várias edições, o JN acusou o ministro de envolvimento no contrabando de pedras preciosas, no qual Abi-Ackel não teve, comprovou-se depois, nenhuma participação. Mas pouca gente lembra disso. É provável até que os jovens executivos da Globo “desconheçam” o episódio. O próprio Abi-Ackel o omite em sua biografia.

Também o governador Leonel Brizola foi vítima de imensos editoriais no Jornal Nacional. Este escriba mesmo, em seus tempos de substituição dos titulares do JN, nos fins de semana e feriados, teve a oportunidade de ler alguns desses editoriais, que eram publicados no domingo no jornal O Globo e antecipados aos sábados na TV.

Ou seja , essa história de acusar a concorrente de usar o principal telejornal da casa para defender “interesses particulares e inconfessáveis” é velha, faz parte dos usos e costumes da mídia brasileira, e foi a própria Globo quem editou e ensinou a cartilha aos demais interessados.

Falar desse assunto não era o objetivo da coluna de hoje, mas não podia deixar passar em branco a oportunidade de resgatar a influência da Globo em momentos históricos do Brasil.

Site do PC do B

Rizzolo: As familiocracias da mídia não aceitam quem as desafiem, ou quem, pretensamente vindo de origem diversa daqueles que, já de forma contumaz, fazendo uso das concessões adquiridas na época autoritária, se prestavam a manipular a opinião pública brasileira a seu bel prazer.

A Record tenta vascularizar a sociedade brasileira com uma postura de informação menos comprometida com a elite, pelo menos, é o que parece; a aproximação de Edir Macedo a Lula sinaliza que algo poderá acontecer nesse sentido. Não podemos esquecer que Lula foi eleito com 58 milhões de votos em face ao fato de possuir um “dialeto” com a população pobre; existe sim, numa análise discursiva, expressões e formas que ultrapassam a postura “pequeno burguesa” que impedem uma maior compreensão do conteúdo ideológico. Isso ficou muito patente quando Alckmin, com todo aparato da mídia, não conseguia ser “absorvido ideologicamente” pelas massas pobres e excluídas, ao passo que Lula, que falava a essência do “dialeto” popular, se comunicava e se fazia compreender na sua essência, na sua postulação.

Com efeito, se existe alguém que, fora Lula, conhece o imaginário popular, quer do ponto de vista de impacto em “pedir algo à massa” (dízimo), ou se fazer entender e ser compreendido na sua totalidade do ponto vista religioso, o que não deixa de ser ideológico, é Edir Macedo. A combinação é explosiva, e se Edir Macedo souber absorver a essência da proposta social de Lula e utilizá-la em prol e benefício do povo brasileiro, a Record estará fechando um circuito histórico virtuoso de bom uso de uma concessão. Não há como daqui pra frente não fazermos a inclusão de 49 milhões de pessoas pobres nesse país, e a imprensa que não cerrar fileira na inclusão perderão o bonde da história, e provavelmente terá o fim da RCTV da Venezuela.