BC quer elevar juros para ver se derruba popularidade de Lula

Predadores da economia insistem em frear a produção e o consumo

Para manter os juros altos, Banco Central sacode o espantalho da inflação, mesmo quando não há risco inflacionário à vista

O Banco Central, na última reunião do Copom (Conselho de Política Monetária), pregou abertamente o aumento da taxa de juros. Já antes da divulgação da ata da reunião, conhecidos porta-vozes dos bancos na mídia haviam propugnado essa medida – fundamentalmente de freio ao crescimento econômico e ao emprego – como necessária para evitar isto ou aquilo. Ou, na linguagem esotérica da ata do Copom: “Um ajuste da taxa básica de juros contribuiria para reforçar a ancoragem das expectativas, não apenas para 2008, mas também no médio prazo, e para reduzir o descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas”.

“Ancoragem” de que expectativas? Como é óbvio, navios ancorados não navegam. Todas as expectativas do país são de que a economia continue crescendo, criando empregos e aumentando a renda dos brasileiros. Portanto, o BC está claramente se arvorando em não permitir que a economia continue a navegar sem entraves artificiais, em não permitir que ela cresça – ou, pelo menos, em não permitir que ela cresça além do medíocre. Daí essa “ancoragem” pelos juros altos. Em suma, o BC está pregando o entrave, a obstrução da economia, em oposição ao objetivo declarado pelo presidente Lula um pouco antes de lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): “desobstruir, desentravar a economia”.

Note-se que Meirelles e cia. não estão se referindo apenas a este ano, mas ao “médio prazo”, ou seja, ao restante do atual mandato presidencial. Quanto ao “descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas”, lembremos mais algumas coisas.

O Brasil teve, em 2007, um crescimento de 5,42%, segundo o IBGE. O leitor deve se lembrar quando, em 2006, logo após a sua reeleição, o presidente Lula definiu que 5% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) era o mínimo que o país necessitaria a partir do ano seguinte (V. p. ex., nossa edição de 17/11/2006). Na época, o presidente foi chamado de, no mínimo, irresponsável e maluco, por ter dito que era preciso “deixar para trás essas taxas medíocres de crescimento”.

SABOTAGEM

Especialmente a diretoria do BC dedicou-se a sabotar a meta estabelecida pelo presidente. Segundo os luminares sob a chefia do sr. Meirelles, o Brasil só poderia crescer, no máximo, 3,5%. Caso contrário, seria a inflação e nada menos que o caos, pois, como é que a nossa economia iria alcançar um crescimento desses sem ir para o abismo? Houve, então, clamores pelo aumento da taxa de juros para “refrear o consumo”, berros sobre a catástrofe que viria se o povo gastasse – e, portanto, ganhasse – mais, e parece que não faltou quem culpasse a falta de moderação dos nordestinos na hora das refeições pelo desastre que se aproximava. Os coristas não eram muitos, mas eram um bocado barulhentos: do BC a filósofos e filósofas do coturno mental da senhorita Leitão (famosa pela genial descoberta de que “quanto mais o governo arrecada, mais ele gasta” e outros princípios igualmente geniais).

Não era a primeira vez, durante o mandato de Lula, que tal ocorrera. De novembro de 2003 até quase o final de 2004, o BC, pressionado pelo presidente e pela sociedade, foi obrigado a diminuir os juros reais básicos. O resultado foi um crescimento de 5,71% em 2004. Porém, logo depois, em meio a um charivari semelhante ao atual, os juros voltaram a subir. O resultado foram taxas de crescimento de 3,16% (2005) e 3,75% (2006) – ou seja, taxas em torno do “máximo” decretado pelas capacidades do BC.

No entanto, em 2007, a política do governo havia mudado. Passaram-se os meses e o ambiente econômico também mudou. Embora ainda no início de sua retomada, a ação do Estado foi suficiente para que o país ultrapassasse a meta de crescimento estabelecida. Como até o Meirelles deve ter notado, a inflação não explodiu e não houve hecatombe, exceto, talvez, a sua continuação na presidência do BC.

Uma economia como a brasileira, diante de uma política de desenvolvimento, reage rápida e positivamente. É preciso ter alguma substância esquisita na cabeça para acreditar que um país grande, abundante em riquezas naturais, e já relativamente desenvolvido, só pode crescer 3,5% ao ano, ou menos.

Seriam inexplicáveis tais crenças exóticas, se não fosse evidente que todo esse mal-ajambrado mafuá “econômico” tem apenas o rasteiro objetivo de manter os juros altos. Não é pelo risco de inflação que a diretoria do BC insiste nos juros altos. Pelo contrário. É para manter os juros altos que eles sacodem o espantalho da inflação, mesmo quando não há risco inflacionário à vista.

Da mesma forma, o limite máximo de 3,5% ao crescimento era somente um pretexto para manter os juros altos. Se o Brasil não pode crescer mais, o que fazer para que não cresça? Aumentar os juros, é claro. Mas porque ele não pode crescer mais do que isso? Porque, para que ele cresça, seria preciso não aumentar os juros, e é isso o que eles não querem fazer.

Hoje, não é para proteger o país da crise dos EUA que eles querem aumentar os juros. Se quisessem realmente, fariam o contrário: baixariam os juros para possibilitar ao país, como em outras crises da metrópole dominante, desenvolver-se, tornando-se mais independente, baseando o crescimento em nosso potencialmente grande mercado interno, substituindo importações pela produção nacional e dirigindo a poupança interna para a produção.

No entanto, como é exatamente isso o que não querem, já projetaram no futuro um “descompasso entre a oferta e a demanda”. É óbvio que, em qualquer processo de crescimento, se não há investimentos que possibilitem um aumento da oferta de bens, o aumento da procura (demanda) leva ao desabastecimento e, numa economia capitalista, à inflação.

No entanto, no Brasil os investimentos têm crescido mais rapidamente que a demanda de bens pela população. Em 2007, o consumo, segundo o IBGE, aumentou 6,5%, enquanto os investimentos cresceram 13,4%. Os investimentos públicos e privados em máquinas e equipamentos (ou seja, em ampliação da oferta) aumentaram 30% nos últimos três anos. A capacidade instalada da indústria, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), aumentou 7% em 2007 e a previsão é que se amplie em 11% ao final de 2008. Em relação ao PIB, houve um aumento de 15,9% (2005) para 17,6% (2007) na taxa de investimento (formação bruta de capital) da economia. A meta – que consta da “Política de Desenvolvimento Produtivo” que será lançada pelo governo – é aumentar essa taxa para 21% em 2010.

Além disso, as indústrias ainda mantêm uma folga de 15 a 17% de sua capacidade, que está ociosa, ou seja, ainda não está sendo usada para suprir a procura de mercadorias. Aliás, devido ao aumento da sua capacidade instalada, mesmo com o crescimento econômico, a capacidade ocupada pela produção mantém-se estável desde 2004, segundo os dados da FGV. A média da capacidade ocupada até diminuiu ligeiramente entre novembro de 2007 (83,7%) e fevereiro deste ano (83,3%). Segundo a FGV, os dados com ajuste sazonal (ou seja, expurgados de variações devidas à época do ano) têm trajetória semelhante.

Naturalmente, a evolução dos investimentos (ou seja, de ampliação da oferta) depende dos juros. Se eles aumentarem, evidentemente, isso não será um incentivo para que os empresários aumentem a oferta de produtos, pelo contrário. Portanto, o aumento de juros propagandeado pelo BC, além de refrear o consumo é uma forma de, também, restringir a oferta de mercadorias à população. Não se trata de combater qualquer descompasso entre oferta e procura, mas de golpear ambos. E tudo para manter os juros altos – ou seja, para beneficiar um ínfimo número de banqueiros, agiotas e predadores da economia.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: O texto é de uma ótima análise, não resta a menor dúvida que o BC não tem interesse em desenvolver a economia gerando um mercado interno cada vez mais robusto. Ao contrário, com a política perversa das altas taxas de juros, quer sim frear a economia beneficiando aqueles que transformaram o Brasil num grande Cassino, os especuladores. Não é possível que Meirelles e turma do Copom insistam nessa versão econômica arrasadora e que apregoa a financeirização da economia brasileira.

Na verdade, não acredito que a questão esteja em derrubar a popularidade de Lula, mas sim em perpetuar os altíssimos ganhos dos especuladores, o próprio Antônio Erminio de Moraes, um dos maiores empresários brasileiros já advertiu várias vezes sobre essa questão dos juros. Não podemos mais suportar essa enxurrada de dólares que entram via especulação e que desestabilizam o nosso câmbio, trazendo problemas na balança comercial. Hoje o pobre empresario nacional não consegue exportar face ao câmbio valorizado.

Não há dúvida que o crescimento implica em demanda, temos sim que aumentar a produção, para que possamos ter condições de oferta e equilibrar a produção e a demanda. Isso é sim é combater a inflação, aumentando a oferta, o desenvolvimento, a produção, e não ao contrário como assim querem os representantes da agiotagem internacional. Em todo o ano passado, o superávit comercial do país foi de US$ 40 bilhões, resultado de exportações de US$ 160,6 bilhões e importações de US$ 120,6 bilhões.

Para este ano, a previsão é que o saldo comercial caia 30%, para US$ 28 bilhões. Essa estimativa é do mais recente boletim Focus, pesquisa que o Banco Central realiza semanalmente com cerca de cem instituições financeiras sobre as projeções de diversos indicadores da economia brasileira.