Obama orgazina jantar de Pessach na Casa Branca

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O presidente dos EUA, Barack Obama, recebeu amigos, familiares e funcionários de seu governo para celebrar um Seder de Pessach – cerimônia que foi realizada pela primeira vez na Casa Branca. No cardápio, matzá e pratos típicos da festa judaica. Durante o jantar também fez-se a leitura da Hagadá. Cerca de 2% da população americana é judia. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, explicou que a idéia do Seder nasceu durante a campanha eleitoral de 2008, quando Obama e sua equipe realizaram a cerimônia em um salão do Hotel de Harrisburg, na Pensilvânia. “Eu não fui, mas me contaram que, nesse evento, disseram: ‘no ano que vem, vamos comemorá-lo na Casa Branca’. E aqui estamos”, contou.
fonte Jornal Alef

Rizzolo: Chag Sameach Obama, no ano que vem esperamos participar do Seder do presidente Lula em Brasília. Agora não vi a Kipá de Obama, aonde está ? Valeu a intenção. Pessach é a pascoa judaica. Que Deus abençoe seu mandato Obama. Para quem não conhece, a leitura da Hagadá é a narração da saída dos judeus do Egito na condição de escravos. Muito bom, achei uma atitude muito bonita do presidente americano. Uma deferência ao povo judeu.

Pêssach: a importância da liberdade

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Família comemorando pessach na época medieval (óleo sobre tela)

Esta noite, dia 29 de março 2010, judeus de todo o mundo dão início a uma festa especial : a comemoração da saída do Egito, narrado no Velho Testamento. Comemoraram a passagem de um estado de escravidão, a um estado de liberdade. Através dos anos o conceito de libertação narrado na Bíblia, que se resumia apenas à libertação de um povo, deu também interpretação maior, a toda forma de liberdade, quer do ponto de vista pessoal ou social.

Todos os dias estamos tentando nos libertar dos “Egitos” existentes nas nossas vidas e na sociedade. Quantas são as vezes, que nos escravizamos e nos deixamos escravizar por meio das desigualdades, das tiranias, das doenças, das limitações, ou das humilhações.

Toda liberdade é fruto da conquista. Moisés tentou convencer o faraó a libertar o povo judeu, através da intelectualidade, da argumentação ao mesmo tempo em que contava com a ajuda de Deus. É é assim na vida, precisamos nos educar, nos preparar intelectualmente, estudar, para mudarmos o mundo, e como parceiros de Deus, podermos tentar libertam também o próximo com nosso talento.

Liberdade se conquista através da educação, e da igualdade de oportunidades, instrumentos que servem de ponte à turva travessia entre o obscurantismo escravizante ao brilho da liberdade redentora. Que hoje seja um dia de reflexão para que possamos nos libertar do ” Egitos” que habitam nossas vidas, brindando a passagem com os ideais da solidariedade, da justiça e da ética no nosso País. Leia também artigo meu: Inclusão Social e Liberdade

Fernando Rizzolo

Indignação: instrumento de Deus

Talvez uma das características mais revolucionárias do instinto humano seja a capacidade de nos indignarmos. Na história do mundo, inúmeras foram as pessoas que pela força motriz da indignação e do não conformismo se lançaram a uma nova proposta, a uma nova postura, diante de situações que ao olhar de um conformista nada restaria a não ser a resignação.

Tenho me aprofundado muito sobre na questão do que chamamos no judaísmo de Tikún Olam, que significa reparar, transformar e melhorar nosso mundo. Como seres humanos, somos, na essência, parceiros de Deus, e um bom parceiro não pode fazer vistas grossas aos problemas que envolvem a sociedade, como o combate às injustiças sociais, a luta contra a miséria e a disposição para a ética no esforço do aprimoramento profissional, seja de que área for.

No Brasil, ainda não transformamos a política num instrumento hábil e capaz de servir aos interesses da maioria da população pobre do nosso País, salvo algumas propostas ou a atuação de alguns políticos idealistas. Na verdade, este instrumento social tem sido desvirtuado de sua originária proposta social. Vivemos no Brasil uma crise de ética política, haja vista o passado dos representantes do povo brasileiro, salvo algumas dignas exceções. Com efeito, a indignação e política são irmãs por natureza, a primeiro advinda do espírito, do senso de justiça, do inconformismo, a segunda resultante da viabilidade social de se fazer concretizar o ideal da mudança.

Muito se fala em relação aos fatores que levam ao Tikum Olam. Na própria história do presidente Lula, existe um componente forte de indignação que nos faz perguntar: “Até que ponto a indignação de Luiz Inácio Lula da Silva não o moveu a iniciar um caminho de líder sindical que culminou à Presidência da República ?

Quando partimos de uma análise política – espiritual, atemo-nos apenas ao lado emocional. Com certeza, em determinando momento de vida, o presidente, ainda operário, viu-se parceiro de um projeto maior, mesmo sem ter total conhecimento da essência deste projeto, assim como tantos outros líderes, no Brasil e no mundo, dos mais variados segmentos sociais ou profissionais.

A indignação é algo que devemos praticar. Alguns já nascem com ela, outros a desenvolve, e infelizmente outra parcela a perde. A vigilância e os questionamentos sobre o que é justo e ético do ponto de vista humano são matéria-prima do senso de indignação, que por sua vez, é o instrumento eficaz de participação do projeto divino de parceria do homem com Deus, muito embora o valor do exercício dessa parceria material transcenda aspectos religiosos.

Muitos daqueles que repararam, transformaram e melhoraram o mundo com seus atos, gestos e idéias, mesmo sem saber, foram de uma religiosidade infinita; até porque, aos olhos do Grande Arquiteto do Universo, o que importa é a ação, a parceria, e isso vale mais do que mil orações.

Ainda me lembro certa vez, quando caminhava no centro de São Paulo em direção ao fórum; em dado momento, na calçada movimentada, me dei conta de que as pessoas, inclusive eu, por falta de espaço físico, passavam por cima dos pés de uma criança que dormia enrolada num cobertor sujo, provavelmente drogada.

Num gesto rápido, ao passar por ela, olhei o relógio para verificar se estava atrasado ao meu compromisso. Foi quando me surpreendi com o fato de que eu e tantas outras pessoas, havíamos passado por cima de ser humano, uma criança abandonada, doente, sem nem sequer nos termos indignado. Aquela imagem e a minha insensibilidade me perturbaram o dia inteiro. Eu dizia para mim mesmo: ” Você jamais deve se acostumar a ver crianças jogadas na rua”.

Era época de Yom Kippur, o Dia do Perdão, quando fazemos um balanço do ano que passou e nos arrependemos dos erros cometidos. Então tentei responder perante Deus à seguinte pergunta, como costumo fazer todos os anos faço: ” Que tipo de pessoa eu me tornei ?” A resposta sempre me serviu para me redirecionar, e me fazer indignar com as coisas erradas desse mundo. Afinal a indignação é um instrumento de Deus e perdê-la significa não ser mais um bom parceiro, e isso não é bom nem para Ele, tampouco para nós.

Fernando Rizzolo

Abastecendo o armazém da dignidade

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Yossef interpreta o sonho do Faraó

Como de costume, todo Sábado procuro não escrever textos que não estejam relacionados com o Shabbat, e com o estudo da Tora. Sem ter a intenção de dar uma conotação pessoal religiosa ao que escrevo, me permito dirigir me a você, que acompanha minhas reflexões diariamente, e de uma forma humilde, compartilhar com o amigo(a) esses momentos de introspecção dos meus estudos no Shabbat, que se iniciam todas às sextas-feiras, quando me recolho duas horas antes da primeira estrela surgir no céu, numa Sinagoga ortodoxa que freqüento em São Paulo.

Como já disse anteriormente, tenho profundo respeito por todas as crenças, religiões, e acima de tudo sou um brasileiro patriota, amo meu país e o povo brasileiro, e tenho sim, uma grande satisfação espiritual em ao estudar a Parashá (Porção da Tora semanal) relacioná-la ao que vivemos nos dias atuais. Como é uma reflexão de estudo pessoal, baseada na introspecção, recomendo a todos que acompanhem no Antigo testamento (Tora) os comentários aqui expostos, para que possamos ter uma semana de paz, e que através dos estudos judaicos, possamos compreender nossas vidas e encontrar formas de superar as adversidades na visão de Hashem (Deus), para que possamos construir um Brasil cada vez mais digno e com mais justiça social, que é a base do Judaísmo, do Cristianismo e de todas as religiões.

A Parashat desta semana chama-se Mikêts inicia-se com o famoso sonho do faraó sobre sete vacas esqueléticas devorando sete vacas gordas, seguido por sete magras espigas de cereal devorando sete espigas saudáveis.

Quando seus conselheiros e necromantes foram incapazes de resolver adequadamente a intrigante charada, o faraó chamou Yossef (José), que havia estado na prisão por um total de sete anos, para interpretar seus sonhos. Creditando seu poder de interpretação unicamente a D’us, Yossef diz ao faraó que, após viverem sete anos de extraordinária abundância nas colheitas, o Egito será assolado por sete anos de uma escassez devastadora.

Yossef aconselha o faraó a procurar um homem sábio para presidir a coleta e o armazenamento de grande quantidade de alimentos durante os anos de fartura. Impressionado pela brilhante interpretação, o faraó designa Yossef para ser o vice-rei do Egito, fazendo dele o segundo homem na hierarquia do país.

A mulher de Yossef, Asnat, dá à luz dois filhos, Menashê e Efraim, e os anos de fartura e escassez acontecem como Yossef havia predito.Com a fome abatendo também na terra de Canaan, os irmãos de Yossef vão ao Egito para comprar alimentos. Como não reconhecem seu renomado irmão, Yossef põe em ação um plano para determinar se eles se arrependeram totalmente pelo pecado de tê-lo vendido quase vinte anos atrás.

Yossef age com indiferença e os acusa de serem espiões, mantendo Shimeon como refém, enquanto o restante dos irmãos retorna com os alimentos para Canaan. Yossef, ainda não sendo reconhecido, conta-lhes que Shimeon será libertado apenas quando retornarem ao Egito com o irmão mais novo. Relutante a princípio, mas confrontado pela escassez crescente, Yaacov finalmente concorda em permitir aos filhos que levem Binyamin com eles. Ao chegarem ao Egito, Yossef testa ainda mais os irmãos, tratando bem a todos, mas mostrando um grande favoritismo por Binyamin.

Quando os irmãos finalmente voltam para casa com os baús repletos de cereais, Yossef esconde sua taça na sacola de Binyamin e este é acusado de ter roubado o precioso objeto. A porção termina com a ameaça pendente de que Binyamin será feito escravo do governante egípcio.

Ao informar ao Faraó um possível problema que estava por surgir, que era a vinda de um período de fome no Egito, Yossef aconselhou ao rei a aproveitar e armazenar alimentos durante os sete anos precedentes de fartura para assegurar a sobrevivência durante os sete anos de escassez. O que significa isso ? Isso significa que o mais importante nos anos de desenvolvimento, de abundância e de fartura é o planejamento e a implementação dos projetos sociais, que englobam a dignidade humana. Ora, se na época de fartura, como a que vivemos no Brasil e no mundo, com um desenvolvimento jamais visto, não pensarmos e planejarmos propostas visando os pobres. Quando a faremos? Nos momentos de fome?

Se nunca se arrecadou tanto, face aos lucros das empresas, quando então poderemos abastecer o armazém da dignidade dando oportunidade aos humildes, para que nas tempestades econômicas possam eles estar mais preparados do ponto de vista de saúde, de qualificação profissional, de cultura e de esperança? Se, durante os anos de fartura, adquirimos as armas necessárias para ter sucesso na vida, então teremos a habilidade de sobreviver durante os anos de fome. Contudo, sempre existem aqueles que apregoam o individualismo, que entendem que arrecadar para abastecer o armazém da dignidade é gastar dinheiro à toa, para o lucro tudo, e para os pobres nada. Observem que mesmo os irmãos de Yossef que o abandonaram e o venderam aos árabes como escravo, em monumentos de dificuldade vieram do Egito para se abastecerem face à fome na terra de Canaan, isso explica o fato daqueles que na maldade do egocentrismo em não aceitar pagar impostos visando transferência de renda, quando da dificuldade, se socorrem dos benefícios daqueles que planejaram e souberam ” planejar para o bem “.

O dia em que a elite brasileira, entender que nos momentos de prosperidade deve-se dar um impulso aqueles mais necessitados, colherá os frutos dessa política quando na dificuldade econômica, que por ventura o pais enfrentar, constatar a diminuição da criminalidade, uma melhor preparação intelectual da população pobre, será então mais fácil adequa-los a uma realidade difícil face à cultura que obtiveram na prosperidade. No Brasil já tivemos muitos ” reis” (governos) que não souberam direcionar as riquezas do país armazenando-as no ” galpão da dignidade “, e hoje colhemos o resultado da falta de planejamento social. A coleta e o armazenamento dos alimentos sociais se deve fazer na prosperidade e terão que contar com a compreensão daqueles que de tudo já tem, que deveriam ser patriotas, justos, cristãos, e acima de tudo humanos.

Para você um Sábado de paz. ( Sabbath Shalom )

Fernando Rizzolo

Justiça Social, uma expressão de religiosidade ?

Escrevo essa pequena reflexão Sábado, bem cedo, portanto segundo o Judaísmo ainda no “Shabbat”. Para que desconhece, a cada semana, na religião judaica, discute-se uma “passagem” ou uma porção do Antigo Testamento que se denomina “Parashat”, na realidade, é uma subdiivsão da Tora, são partes, sendo que cada uma tem um nome.

O que me impressionou na Parashat desta semana, cujo nome é “Vayierá” é um conteúdo de discussão antigo e atual, fala-se da bondade imensurável de Abraão quando junto a Sara na casa em que moravam, as disponibilidades das tendas estavam abertas nos quatro lados da casa, dando assim, a possibilidade a quem passasse, de ser atendido e hospedado, como gesto de bondade ao pobre e faminto forasteiro; perto da sua casa estavam as cidades de Sodoma e Gamorra cidades essas que reinavam a iniqüidade, principalmente a social. Era-se proibido dar alimentos aos pobres, existia sim um decreto, a parte de as todas outras maldades, era virtude não se consternar com os pobres, e mais, quem se atrevesse a alimentá-los de acordo com o decreto, era condenado à morte. Segundo a Tora, Abraão foi visitado por três anjos, que abençoaram sua bondade, e a partir aí, no desenrolar da narrativa, se observa, conceitos de justiça social, moralidade, e outros aspectos tão pertinentes as nossas vidas.

Interessante que, na referida narrativa, observamos a discussão de Abraão com Deus quando soube que as cidades perversas, onde as injustiças sociais ocorriam, seriam destruídas; argumentava ele com Deus, se por acaso seria o Todo Poderoso capaz de destruir a cidade mesmo sabendo que havia uma pequena quantidade de pessoas de bem. Deus disse não. Ou seja, existe no conceito religioso, a questão da hospitalidade, e de que, mesmo que determinado povo, ou região esteja cheio de marginais, bandidos, sempre existem pessoas boas, e que a intervenção em seu favor deve sempre se prevalecer. Outra é a forma como a injustiça social predominava nos tempos biblicos, a elite da época nessas cidades proibiam a ajuda aos pobres, entendiam que as riquezas não deveriam ser compartilhadas com os demais, e quando souberam que a filha de um camarada chamado Lot alimentou e ajudou alguns pobres, foi literalmente morta por ataques de abelhas.

Como não sou religioso, e essa é a versão judaica não muito aprofundada que conheço e que foi prédica do meu Rabino, me atenho apenas aos conceitos éticos. O que me salta aos olhos, é que a injustiça social, e a egocentrismo, está presente na humanidade desde os relatos bíblicos, existe sim uma luta interna entre aqueles que não concedem o que é seu em favor dos outros, dos desvalidos, e aqueles que de alguma forma lutam para fazer Justiça Social, e jamais se conformam em ver seu semelhante em aflição social.

O que falarmos sobre a questão dos morros no Rio de Janeiro? O que falarmos sobre a postura de pessoas advindas da elite, que não aceitam a pobreza e que culpam os moradores das favelas pelo seu trágico destino, como o governador do Rio de Janeiro, alegando que o número de bandidos se deve a falta de controle de natalidade ? Não seria isso total insensibilidade ? Como chegar a uma conclusão desta inocentando o Estado que todos sabem foi omisso em relação aos pobres imerso nas políticas neoliberais ? Como culpá-los, e justificar um fuzil apontado em direção à miséria ? Abrãao não faria o papel daqueles que tanto lutam pela questão humanitária de Justiça Social, ao discutir com Deus essa questão ? E por final. Como entender a idéia de que Deus acabou e liquidou as cidades em face à política imoral e principalmente em relação aos injustos conceitos de justiça social de seus dirigentes que desprezavam os desvalidos?

É claro que quando misturamos conceitos religiosos com sociais, as margens para interpretações são muitas, mas o interessante da visão judaica do contexto biblico, é a preocupação com os pobres. Talvez no inconsciente coletivo judaico essas histórias tenham levado a um número elevado de judeus militantes socialistas no mundo, não podemos conceber, um mundo onde a negação às oportunidades seja aplaudida, o conceito cristão dá ainda mais ênfase à bondade e a justiça entre os homens, muito embora, a Igreja Católica, há muito deixou de se preocupar com os pobres, a própria Teologia da Libertação foi desprezada pelo Vaticano, um ato muito triste no meu entender.

Ainda me lembro, quando certa vez, na Sinagoga, quando um amigo meu, neto de um grande ativista comunista chamado Leôncio Basbaum se referiu ao seu avô, ao olhar aquele grande número de judeus rezando, dizia ele , olhando para o livro de rezas, ” Meu avô, judeu militante comunista, nunca foi a uma Sinagoga, e concluiu, dizendo: Eh !, ” Existem muitas formas de se expressar a religiosidade, e a forma que ele encontrou foi se engajar no Partido Comunista, lutando pelos mais pobres “; isso naquela hora soou para mim como uma prece, fiz uma rápida reflexão sobre a opção religiosa das pessoas via luta social, tão nobre quanto uma oração, tão nobre quanto ir à Sinagoga ou Igreja ou ouvir um culto. Fiquei olhando para o livro de reza, ouvindo o ” Chazan ” ( cantor da Sinagoga” ) e pensando, Leôncio Basbaum foi grande religioso.

Fernando Rizzolo