Pochamnn defende qualificação de mão-de-obra em todo o país

O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, afirma que o aquecimento do mercado de trabalho não irá pressionar a inflação porque está restrito ao segmento de mão-de-obra qualificada. “O Brasil é capaz de resolver esse problema”, diz Pochmann. Mas ele pondera que, no médio e longo prazos, a falta de trabalhadores especializados poderá se tornar um problema concreto, caso não sejam adotadas políticas de qualificação.

Pochmann não acredita que a queda contínua da taxa de desemprego possa acelerar a inflação. Ele questiona o conceito de taxa natural de desemprego, que recentemente foi adotado pelo Banco Central como um instrumento auxiliar para guiar as decisões de política monetária.

“O conceito se esvaziou na década 90, quando o desemprego nos Estados Unidos caiu abaixo da suposta taxa natural e a inflação não se acelerou”, diz. “A teoria é ainda mais problemática quando aplicada ao Brasil, porque não temos um mercado de trabalho organizado como os Estados Unidos.”

As estatísticas de desemprego, argumenta Pochmann, não refletem com exatidão o número desempregados. No Brasil, afirma, a cada dois empregos, um é assalariado e outro é não assalariado. “Uma pessoa que trabalhou duas horas em uma semana é considerada empregada no Brasil”, diz. “Ou seja, alguém que fez um bico lavando carros é considerado empregado.” Ajustando os dados para incorporar os subempregados, a taxa de desemprego salta para percentuais tão elevados que seria irreal tomá-lo como uma taxa natural. “A taxa de desemprego no Brasil não expressa o nível de atividade da economia”, afirma.

Pochmann diz que, se a economia cresce 5%, são criados cerca de 2,5 milhões de postos de trabalho anuais, cifra pouco superior aos cerca de 2,3 milhões de trabalhadores que se apresentam ao mercado todos os anos. A diferença, de 200 mil empregos, seria facilmente suprida por um número de cerca de 8 milhões de desempregados no país, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Situação paradoxal

Apesar da grande oferta de mão-de-obra, pondera Pochmann, faltam trabalhadores qualificados, como engenheiros. “É um paradoxo”, diz. Mas, no curto prazo, a economia tem sido capaz de reagir, qualificando os trabalhadores para atender à demanda das empresas.

Os reajustes salariais, na visão do economista, são explicados mais pelo fato de que a economia vive um período de fortes investimentos. Nos anos 90, lembra, também houve procura por trabalhadores qualificados. Mas naquele período a mão-de-obra qualificada foi usada em trabalhos que exigiam baixa qualificação. “É por isso que os salários não subiram”, afirma. “Agora, é diferente, porque os investimentos criam uma demanda genuína por trabalho qualificado e os salários sobem, acompanhando o aumento da produtividade.”

No médio e longo prazos, afirma, a demanda por trabalhadores qualificados poderá superar a capacidade de oferta – gerando pressões inflacionárias. “Será fundamental criar um sistema público de empregos, que, entre outras coisas, cuide da qualificação dos profissionais”, afirma.

Fonte: Valor Econômico

Rizzolo: A qualificação de mão-de-obra é essencial para o desenvolvimento do País. Na realidade, o aumento da procura por mão de obra especializada reflete o nível do desenvolvimento industrial. A questão crucial, é que pouco temos feito para implementar a criação dessa mão-de-obra, poucas são as empresas que investem na mão-de-obra local investindo na sua qualificação.

O que observamos, é que não existe uma política quer empresarial quer do Estado em criar mão-de-obra local; assim sendo o trabalhador qualificado tem uma caracterização difusa, ou seja, muitas vezes o trabalhador especializado é contratado em São Paulo, mas reside em Santos. Esse fato, é devido a falta de uma política regional de criação de mão-de-obra, que por sua vez, inflaciona os salários, pois como a procura é grande, paga-se o transporte e o ” passe ” do trabalhador.

O estímulo à criação de um maior número de escolas técnicas nos polos de desenvolvimento, poderia minimizar esse problema, basta incentivo tributário às empresas, e uma política pública de ensino técnico regionalizada