Quando a ética está descompensada

Talvez o primeiro filósofo a elucidar a questão da ética, tenha sido Brauch Spinoza, um judeu nascido em Amsterdam em 1632, filho de judeus portugueses, de modesta condição social, emigrados para a Holanda. Spinoza depois de manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação, foi excomungado pela Sinagoga em 1656, sua principal obra que aborda a questão, chama-se a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677), seu texto é ao mesmo libertário, e se dispõe a relacionar a Ética com as relações de culpa. Já no judaísmo o conceito de ética surge no Pentateuco, onde não há distinção entre regras de natureza legal e de natureza moral; ambas são apresentadas via revelação e se equiparam no que tange à sua autoridade.

O intrigante conceito de ética, avassala o pensamento de intelectuais e filósofos contemporâneos, ao estabelecer os parâmetros do moral aceitável e o mínimo conceituado nos Códigos como no Código Cilvil; na verdade, a expressão dos artigos legais são em última instância o mínimo de ética requerido a uma sociedade. A grande pergunta que se pode fazer é porque existe hoje no Brasil uma ” descompensação ética” na política? Quando me refiro ao termo ” descompensação “, entendo ele extremamente apropriado, até porque, ética se adquire e se perde. Não há que se questionar sobre aqueles que por berço ou falta de convívio, jamais a exercitaram e tampouco sabem distingui-la.

Nesse esteio de preocupação com a questão, surgiu no âmbito do governo federal, a Comissão de Ética Pública, instrumento esse de apoio e acompanhamento da implantação da gestão da ética nas entidades e órgãos que integram o Poder Executivo Federal. Em que pese o fato de a comissão ser balizador das posturas e condutas públicas, a interpretação dos conceitos éticos esbarram nas conveniências políticas e acabam desvalidando tudo que deveria servir de paradigma e orientação no campo da ética.

Quando presidente Lula não se apercebe que a demora no acatamento da orientação da comissão traz prejuízos de ordem moral, os questionamentos se voltam e produzimos dessa forma, uma descompensação da ética; ter ciência que um Ministro do Trabalho, no caso o Sr.Carlos Lupi, acumule o cargo com a presidência de um partido, beneficiando de forma inconteste organizações não governamentais cujos dirigente são filiados ou parentes de filiados do PDT, e permanecer o presidente numa atitude contemplativa, denota omissão e nos leva a concluir que infelizmente os interesses políticos se sobrepõem aos conceitos da moral e da ética.

Com o costumeiro acerto, o presidente da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, Marcílio Marques Moreira, pediu ontem afastamento do cargo. O mandato terminaria em maio deste ano e poderia ser renovado por mais um ano. Ele nega que a decisão de antecipar sua saída esteja relacionada com a demora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em se posicionar sobre a recomendação da comissão que sugeria a demissão do ministro Carlos Lupi, mas fica patente que diante dos fatos não há o que se questionar. São muitas as ocorrências no governo Lula envolvendo a esfera da ética e da probidade. Seria uma ótima oportunidade para que o governo federal demonstrasse sua saúde moral acatando a orientação da comissão numa cabal demonstração de que a “saúde moral” no nosso País não está totalmente descompensada.

Fernando Rizzolo