Especuladores ganham 10,6% só com diferencial do câmbio

Diferença entre taxas de juros internas e externas aumentaram com resistência em cortar Selic

Nos últimos dias, enquanto a taxa de câmbio provocava protestos de empresários nacionais – afetados pelo encarecimento de seus produtos no mercado externo e pelo barateamento das importações, que ocupam, mais uma vez, uma faixa crescente do mercado interno – surgiram algumas pessoas para saudar os dólares que, momentaneamente, estão entrando no país, como se fossem a redenção da economia.

Resumidamente: o real se sobrevaloriza porque os dólares entram no país em cambulhada – e, quando acontece isso, as empresas nacionais são solapadas pela maior dificuldade de vender tanto no mercado fora do Brasil quanto dentro do país.
Vamos logo aos termos da linguagem popular: achar que isso é bom para a economia do Brasil é coisa de maluco, ou de ingênuo, ou de elemento de má fé.

Até porque estamos diante de uma incursão meramente especulativa, como mostra o fluxo cambial de maio, divulgado pelo Banco Central. Para se ter uma ideia, os especuladores, somente em maio, ganharam 10,6% sem fazer absolutamente nada, apenas trocando dólares por reais e reais por dólares, devido à taxa de câmbio. Somente com essa vadia operação, ficaram com mais 10,6% do que aquilo com que entraram no país.

Naturalmente, eles não ganharam só com isso – também ganharam com os juros do BC, com ações na Bolsa, com a papelada do cassino, isto é, do “mercado futuro”, e especulando no mercado a vista do dólar. Isso, evidentemente, sem criar um só emprego no país, sem abrir um armarinho ou um botequim, quanto mais (ou menos) uma fábrica.

Porém, o que faz com que o real suba artificialmente, embalado por um câmbio que somente “flutua” de acordo com a manipulação dos especuladores? E por que, no meio de uma crise, em vez de retirarem recursos do país, eles estão entrando com dólares?

Em primeiro lugar, eles estão retirando recursos do país – esses 10,6% de ganho são recursos do país. Se ainda não saíram do país, se ainda não enviaram esses recursos para fora, é apenas porque o bolo está crescendo – isto é, estão sequestrando mais recursos do país e enfiando-os em seus cofres.

Em segundo lugar, como já disseram vários economistas, no primeiro aperto da crise, ou aqui ou em seus países, eles todos farão uma revoada – levando, inclusive, as reservas, essa coleção de fumaça do sr. Meirelles, pois não há como classificar de outro modo uma montanha de dinheiro constituída pelos dólares que os especuladores trocaram por reais, e que podem destrocar na hora que quiserem.

Mas por que eles vieram agora, se desde a falência do Lehman Brothers, em setembro, estavam ocupados em tirar com um balde a água que entrava aos borbotões em seu barco? Primeiro, eles estão usando o dinheiro do povo americano – até agora, o governo americano injetou US$ 14,9 trilhões (mais do que o PIB dos EUA) no sistema financeiro, segundo relatório do Deutsche Bank (cf. “U.S. Rescue Aid Entrenches Itself”, The Wall Street Journal, 21/05/2009).

Porém, o mais decisivo é que Meirelles ofereceu carne – a nossa – para os abutres. O motivo mais fundamental da atual invasão é simples: o diferencial de juros do Brasil em relação a quase todos os países é estúpido. Não é apenas que todos os países do mundo, com exceção de quatro, têm juros reais que não chegam a 2%. O mais importante é que a taxa real do BC, 5,8% é cavalar em relação aos EUA, onde o juro real está em zero, à Europa – onde o juro real mais elevado (o de Portugal) é 1,7%, o da Alemanha é 0,6% e o da Inglaterra é -2,3% (menos 2,3%) – e ao Japão, onde o juro básico real é 0,2%.

Evidentemente que os abutres, sobretudo quando estão com fome, não iam dispensar essa presa. Nada como tomar dinheiro em seus países a preço zero e vir ganhar mais de 10% sem fazer nada.

A única pessoa no país que nega que o diferencial de juros seja o responsável pela sobrevalorização do real, é o presidente do BC. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo disse outro dia que “eu não sei se ele diz isso por convicção ou por escapismo, mas é lamentável em qualquer hipótese”. Como se sabe, Belluzzo é um homem muito educado. Por isso não lhe ocorreu, ou não falou, em outra hipótese, muito mais provável: que Meirelles faça isso por interesse. Não por acaso é funcionário aposentado do BankBoston.

Com razão, afirma Belluzzo, “se não quiserem controlar capitais, por julgarem um sacrilégio, que pelo menos reduzam bastante a Selic”.

No entanto, segundo a propaganda de Meirelles, o Brasil nunca teve juros tão baixos. Além de não ser verdade – já houve até juro negativo no Brasil – Meirelles está escondendo o mais importante: o diferencial entre os juros do Brasil e os juros dos EUA, Europa e Japão, aumentou, não diminuiu.

O diferencial de juros entre o Brasil e os EUA, em termos reais, é, hoje, de 5,8 pontos percentuais – isto é, o juro básico real é 580% maior que o dos EUA.
Pois em fevereiro e março esse diferencial era de 5,35 pontos percentuais. E, mais, o diferencial aumentou barbaramente do início da crise americana até dezembro, pois, enquanto o FED (o BC dos EUA), em 2008, reduzia a sua taxa básica de 2% nominais para 0,25%, o BC do sr. Meirelles aumentava a taxa nominal de 11,25% para 13,75%, mantendo esta elevadíssima taxa durante todos os quatro meses iniciais da crise. É verdade que em termos nominais houve uma redução do diferencial em janeiro, como disseram alguns áulicos de Meirelles – mas isso não significa nada. O problema são as taxas reais.

Aliás, esses áulicos, geralmente do PSDB ou coisa que o valha, deveriam consultar um correligionário, o economista Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo. Em recente artigo, diz o sr. Nakano, que pode ser reacionário, mas não é um muar, como certos colegas seus de partido: “o Banco Central do Brasil reagiu com cautela excessiva, olhando a inflação pelo retrovisor (….). Além disso, quando sinalizou que os juros seriam reduzidos em ritmo bastante lento, o diferencial entre os juros aumentou fortemente, já que os demais países reduziram suas taxas mais agressivamente. O aumento no diferencial da taxa de juros por si só foi um fator de forte atração [para os especuladores], pois os bancos e outras instituições podem captar no mercado monetário de curto prazo a taxa de juros próxima a zero nos EUA” (grifos nossos).

E, mais:

“Para o capital especulativo existe ainda outro fator que torna o real extremamente atraente. O nosso regime de ‘câmbio flutuante’ é presa fácil de profecias que se autorrealizam (….). E cada ponto percentual de apreciação se soma ao diferencial da taxa de juros para compor o retorno do especulador. (….) Assim, o lento ritmo de queda na taxa de juros e a expectativa de apreciação tornaram o real uma aplicação com altíssimo retorno em meio a uma grande crise financeira. Quanto mais especuladores são atraídos, mais o real se aprecia e maior é seu retorno. Desta forma, a taxa de câmbio deverá se apreciar ainda mais de acordo com a convenção do mercado. No momento, aparentemente, a convenção é de que a taxa de câmbio vai cair para R$ 1,80. Ao chegarmos a esta taxa, novas quedas poderão ocorrer segundo uma nova convenção e, numa profecia que se autorrealiza, atrairá cada vez mais especuladores”.

Não deixa de ser interessante que Nakano consiga ver em que poderá redundar, se não forem tomadas as necessárias providências, esse festival especulativo: “As suas consequências são previsíveis, com segurança: o real já apreciou e desencadeou um ciclo de apreciação que deverá terminar bruscamente, em algum momento, causando dramática reviravolta”.

Nós diríamos, apenas, que isso é óbvio.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: Não há como negar os fatos. O diferencial de juros do Brasil em relação a quase todos os países é enorme. Não é por acaso que todos os países do mundo, têm juros reais que não chegam a 2%. O mais importante é que a taxa real do BC, 5,8% é uma monstruosidade em relação aos EUA, onde o juro real está em zero, à Europa – onde o juro real mais elevado (o de Portugal) é 1,7%, o da Alemanha é 0,6% e o da Inglaterra é -2,3% (menos 2,3%) – e ao Japão, onde o juro básico real é 0,2%.

É claro que o problema da apreciação do real é macroeconômico, e visa interesses que não do mercado interno e tampouco no desenvolvimento do País. Com efeito, a valorização do real dos últimos anos solapou a competitividade de diversos segmentos industriais e reduziu nossa capacidade exportadora. Temos que evitar a revalorização da moeda, bem como a desoneração tributária, para obtermos a recuperação do poder competitivo dos produtos industriais brasileiros. O fato de Meirelles ser refratário à diminuição das taxas de juros estrangula a indústria nacional e as exportações. Pouco patriótico, não?

BC quer mais juros para transformar o crescimento do país num vôo de galinha

Aliás, nem mesmo escondem que o objetivo é esse. Se dependesse de Meirelles e cia., o Brasil estaria em marcha acelerada para antes do século XVIII. Achar que um dos maiores países do mundo deve ser uma colônia que não pode crescer mais do que 4% ou 3,5% já era caduquice na época de Dª Maria, a Louca.

Meirelles omite expansão da oferta e diz que o problema é a “expansão da demanda doméstica

De repente, como se saíssem de bueiros destampados, alguns cavalheiros e damas puseram-se a invectivar furiosamente o responsável por nossos males. Não se trata mais da inflação, que se recusa, apesar de suas gestões, a ficar descontrolada. Nem mesmo da corrupção, no momento muito ocupada com os governos que eles apóiam, mormente os do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Não, dizem eles, o verdadeiro culpado é o crescimento. O crescimento? Pois é, o crescimento, esse resultado do esforço do presidente Lula e da sociedade brasileira. No fundo, a culpa é do Lula, que veio com essa idéia incendiária de que o país deve crescer, criar empregos, produzir e desenvolver tecnologia.

Assim, da senhorita Leitão até o exumado Gustavo Franco, o que é uma curta distância, todos eles se puseram a berrar contra o crescimento. Aliás, se precisássemos de uma prova das intenções dessa malta, bastaria a participação especial do precocemente mumificado Franco, um elemento que afundou o país com seu câmbio engessado, e que até Fernando Henrique teve que demitir, para que a subserviência aos bancos externos fosse dotada do mínimo de bom senso que lhe permitisse terminar o mandato…

Se dependesse deles, naturalmente, o Brasil estaria parado – ou, mais precisamente, em marcha acelerada para antes do século XVIII, pois, a idéia de que um dos maiores países do mundo não pode crescer mais do que 4% ou 3,5% (ou menos, porque essas cifras só existem para que o país seja empurrado abaixo delas) já era caduca na época de Dª Maria, a Louca.

Tudo seria apenas agitação inútil de baratas em polvorosa, se algumas delas não estivessem no Banco Central (BC). Em discurso na Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), na segunda-feira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que os aumentos de juros são um “remédio antecipado” contra a inflação. Ou seja, não têm como objetivo, como pregava antes, controlar uma inflação atual, à beira do descontrole (cf. Meirelles à Agência Brasil, 24/05).

BOBAGENS

Passados menos de um mês, onde foi que Meirelles enfiou essa inflação? Não sabemos, leitor. Aliás, nem queremos saber. O fato é que ficou claro que a inflação não estava à beira do descontrole. Daí, a nova versão, a do “remédio antecipado”, mais ou menos como se um médico, diante da possibilidade (que sempre existe) de alguém contrair pneumonia, enchesse o infeliz de penicilina por antecipação, apesar do sujeito estar bastante bem de saúde antes de ser entupido de remédio.

Meirelles sabe que isso é uma bobagem. Tanto assim que, algumas horas depois, mudou a versão. Segundo disse no programa “Roda Viva”, “num regime de metas de inflação, o que define que a taxa de juros está alta ou está baixa é o comportamento da inflação. Se as taxas [de inflação] estão consistentemente acima do intervalo de tolerância, significa que a taxa de juros está muito baixa”.

Se é assim, não teria sentido o aumento dos juros quando a inflação está na meta (ou seja, dentro do “intervalo de tolerância”), como é o nosso caso. E, realmente, não tem sentido, pelo menos não para combater a inflação, mesmo segundo a fraudulenta doutrina econômica da qual Meirelles é serventuário.

Vamos, aqui, fingir que não sabemos que a avaliação do “comportamento da inflação”, nesse “regime”, é determinado por uma meta que é estabelecida, com dois anos de antecedência, por aqueles cuja intenção é manter os juros altos. Portanto, é um critério mais viciado do que as roletas da Máfia.

Apesar disso, como no Brasil as taxas de inflação estão há alguns anos dentro do “intervalo de tolerância” (atualmente, 2,5 a 6,5%), Meirelles inventou outra: segundo ele, nesse caso não há “condições técnicas” de determinar se as taxas de juros estão altas ou baixas.

Então, por que ele aumentou os juros, e promete aumentá-los mais ainda, se não há “condições técnicas” de saber se a taxa de juros é alta ou baixa em relação à inflação? Pelo jeito, ele resolveu aumentá-las porque estava com dúvida.
Meirelles não é um herói sem nenhum caráter, porque não é nem mesmo um herói vagabundo como Macunaíma. No resto, é igual. Pode dizer qualquer coisa, não importa que não tenha lógica ou que seja o oposto do que disse horas antes. Desde que acoite os interesses a que serve, o resto que se dane.

No “Roda Viva”, ele esclareceu que quando a inflação ficar na meta, os juros vão baixar. Tentava passar, outra vez, que somente o “centro” da meta (4,5%) é que importa, mas, então, por que mencionou o “intervalo de tolerância” (a banda de 2,5 a 6,5%), como referencial para a taxa de juros?

A falta de coerência de toda essa algaravia, significa apenas que não é a inflação o problema deles, até porque os preços que estão aumentando não são determinados pela economia brasileira, mas pela especulação externa. Não é para combater um aumento de preços nas mercadorias negociadas na Bolsa de Chicago que os juros são aumentados. O que vêm como um mal em si é o crescimento. O que, aliás, foi escancarado pelos corifeus da banca desde a divulgação do crescimento de 5,8% no primeiro trimestre.

CRESCIMENTO

Quanto a isso, a ata da última reunião do Copom é uma coleção de ataques ao crescimento, ainda que daquela forma muito própria a certos vigaristas. Nela, pode-se ler: “o ritmo de expansão da demanda doméstica (….) continua colocando riscos importantes para a dinâmica inflacionária”.

O problema, portanto, é a “expansão da demanda doméstica”. O Copom omite que há também uma expansão da oferta doméstica e que não há sinal de esgotamento da capacidade ociosa da indústria. Mas o sintomático é que a palavra “inflação” foi substituída por algo chamado “riscos para a dinâmica inflacionária”. A inflação não saiu da meta que eles mesmos definiram, mas não estão combatendo a inflação, e sim “riscos para a dinâmica inflacionária”, expressão que parece ter sido cunhada pelo grande economista Rolando Lero, pois, o que significa “riscos para a dinâmica inflacionária”, senão que não há uma “dinâmica inflacionária”?

Mas, quem é o culpado por esses espectrais “riscos”? O crescimento – ou, na expressão castrada do BC, a “expansão da demanda”. Aqui, eis outra jóia encontrada da ata do Copom: “existe o risco de que os agentes econômicos passem a atribuir maior probabilidade a que elevações da inflação sejam persistentes”.

A palavra “inflação” aparece apenas para se dizer que o problema é o “risco” (sempre o “risco”) dos “agentes econômicos” acreditarem na “probabilidade” da sua futura existência. Tenta-se passar que a inflação é um risco real, mas, quando traduzida para língua de gente, a frase quer dizer apenas que essa inflação é uma probabilidade religiosa, uma questão de fé (e, mesmo assim, fé numa “probabilidade”). Se você, leitor, achou que a linguagem usada pelo Copom tem o propósito de tapeá-lo, acertou.

Fora isso, a ata do Copom garante que, se depender de Meirelles & cia., os juros vão continuar aumentando: “a atual postura de política monetária, a ser mantida enquanto for necessário, irá assegurar a convergência da inflação para a trajetória das metas”.

O fato de não existir divergência entre a inflação e a meta que eles próprios estabeleceram, não tem a menor importância. Porque o que eles querem combater não é a inflação.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: Mas é aquilo que eu estou já repetitivo de tanto comentar, e que no impecável texto de Carlos Lopes podemos inferir. O problema para Meirelles e o COPOM, é “expansão da demanda doméstica”, apenas esquecem eles, que há sim também, uma oferta maior de produtos no mercado interno, ou seja há uma ” expansão de ofertas domésticas” e isso eles não querem admitir.

Ora, porque não focar no desenvolvimento ao invés de procurar sob argumentos fantasiosos bloquear o desenvolvimento econômico. O conceito absurdo de ” remédio antecipado” só pode ser um decreto ao não crescimento do País, ou se quiserem, um decreto e um balde de água fria naquilo que o governo Lula acabou implementando: o desenvolvimento e o crescimento. É o famoso ganhou mas não levou, que querem institucionalizar. Como diz o texto, se dependesse deles, naturalmente, o Brasil estaria parado – ou, mais precisamente, em marcha acelerada para antes do século XVIII. Se médicos fossem preconizariam antibióticos a toda a população pois no frio as pneumonias aumentam, é caso do remédio antecipado em analogia à inflação.

A própria Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou nesta segunda-feira (16) que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) registrou uma variação de 1,07% na segunda prévia de junho, ante 1,12% registrado no início do mês. Ou seja, houve uma desaceleração na inflação. Mas segundo o BC, nada melhor do que jogar uma água fria no crescimento e expor o Brasil a uma forte pneumonia impedindo -o de trabalhar, de gerar empregos, de ser competitivo. Querem internar o Brasil, e o pior, Lula continua não tendo correlação de forças. Coisas que nem o Paulo Skaf da Fiesp entende.

Instigados pelo BC, especuladores exigem mais juros e PIB medíocre

Para reduzir o crescimento a 3,5%, projetam Selic em 14% em 2008 e a queda do PIB em 2009

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de elevar a taxa básica de juros de 11,75% ao ano para 12,25%, no dia 4, só fez aumentar a voracidade dos especuladores. Porém, Meirelles e cia. acham pouco. Da reunião do Copom até agora, nada mais fizeram do que açular mais ainda os apetites rentistas. No primeiro Boletim Focus, após o Copom, o BC , naturalmente atribuindo ao “mercado”, aumentou a estimativa da Selic em 2008 para 14% ao ano, ante 13,75%, projetado na semana passada.

Sem nenhuma questão econômica que avalize tal aumento da taxa de juros, fica explícito que o objetivo é frear o crescimento verificado no segundo governo Lula com a implementação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – cresceram os empregos, a renda e o consumo das famílias brasileiras. Em 2007, o país registrou uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,4%. Em sentido contrário, o “Boletim Focus” do BC prevê uma redução do crescimento do PIB em 2009 para apenas 4%.

Ou seja, para Meirelles o país não pode crescer mais de 3,5%, como deixou claro seu correligionário tucano e ex-ministro de FHC, Luiz Carlos Mendonça de Barros: “o governo fez um movimento correto ao aumentar o superávit primário em 0,5%. Embora modesto – e certamente insuficiente -, ele mostra um melhor entendimento da dinâmica que teremos que enfrentar nos próximos trimestres. Mas é sobre o Banco Central que recairá a maior responsabilidade para promover uma redução próxima a 2,5% na absorção interna ao longo dos próximos 12 ou 18 meses. Isso corresponde trazer o crescimento do PIB para algo próximo a 3,5% ao ano ao longo de 2009”, afirma no artigo “Em busca da estabilidade ameaçada”. No entanto, estabilidade ameaçada no país, só havia a dos especuladores, que viram mais recursos públicos serem direcionados para os investimentos e a produção – ainda que a maior parte dos recursos orçamentários continuasse a ser imobilizada e desperdiçada com juros. Porém, eles querem tudo, não se conformam em ter a maior parte.

Nem mesmo a inflação – o principal pretexto alegado para o aumento dos juros – pode servir de apoio ao aumento dos juros. Além de se encontrar sob controle, abaixo do limite da meta estabelecido pelo BC, é resultado da especulação externa com os preços dos alimentos.

Segundo o Boletim Focus, na reunião do Copom do final de julho, haveria um novo aumento de 0,5 ponto percentual nos juros básicos, passando para 12,75% ao ano. Assim, o BC já prepara o terreno para um efetivo aumento da taxa Selic na próxima reunião do Copom.

De imediato, a elevação ainda mais cavalar dos juros teria como alvo a redução do consumo das famílias, um dos pilares da retomada do crescimento econômico. Mas, também, afetar os investimentos, tanto do governo quanto privados, consubstanciados no PAC. O aumento da Selic implicará necessariamente em desviar mais recursos do Estado para pagamento dos juros da dívida pública e irá conter as intenções de investimentos dos empresários.

“A alta excessiva dos juros anula os efeitos positivos de políticas de estímulo à produção, pois encarecem o financiamento para investir na produção, e a conseqüente valorização do real reduz a competitividade dos produtos nacionais. Ambos conduzem ao menor crescimento”, afirma a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Não há nada no horizonte que justifique o aumento dos juros, a não ser a decisão do BC em impedir a retomada do desenvolvimento. Meirelles tenta repetir o feito de 2004, quando abortou o crescimento que se experimentava no terceiro trimestre daquele ano, quando o BC elevou a Selic em setembro após cinco meses congelada. O resultado foi uma expansão de apenas 3,2% do PIB em 2005 e de 3,7%, em 2006, já com a revisão dos cálculos feita pelo IBGE. Ou seja, o Brasil tinha todas as condições de entrar na rota do crescimento acelerado já no primeiro governo Lula. O processo foi interrompido por uma ação deliberada de Meirelles, quando elevou a taxa de juros.

Hora do Povo

Rizzolo: A política econômica orquestrada pelo Copom e BC em aumentar ainda mais os juros tem como objetivo segurar o desenvolvimento do País. Elevar a taxa básica de juros de 11,75% ao ano para 12,25%, aumenta o apetite dos especuladores que a cada dia participam mais do nosso mercado financeiro que se tornou um verdadeiro cassino. Como já disse inúmeras vezes a política do BC visa o não desenvolvimento, virando às costas à produção, ao aumento da oferta, suprindo a demanda, elementos estes que poderiam sim ir em direção ao combate a essa ” inflação”. Entender que o País só pode crescer 3,5 % é muito pouco, para um País que precisa gerar 5 milhões de empregos por ano. A ânsia em tirar o País na rota do crescimento é algo impressionante, e ao que parece levado pela argumentação da ” independência do BC” o governo se torna passivo e conivente. Enfim o que os especuladores querem é mais juros e PIB medíocre.

Copom aumenta juro mesmo com a inflação sob controle

Selic sobe de 11,75% para 12,25 e juro real no Brasil é o maior do mundo: 6,9%

Na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou outra vez os juros básicos. A taxa com a qual bancos e outros especuladores sangram o Tesouro, ancorando nela as suas próprias taxas de juros, passou de 11,75% para 12,25% ao ano. A taxa real (isto é, descontada a inflação) passou a ser 6,9%, outra vez a maior do mundo.

Dentre os países que adotam o sistema de metas de inflação, o Brasil ficou abaixo do limite da meta

O pretexto foi a inflação, que, segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, está ameaçando a economia. Porém, como ela está perfeitamente dentro da “meta” (uma banda que vai de 2,5% a 6,5%), a tese agora é a de que a inflação tem que estar no “centro” da meta (4,5%). Senão, provavelmente, um tsunami vai transportar Brasília para Bora-Bora, ou alguma outra desgraça, tão real quanto esta. Resta saber porque o próprio Meirelles propôs uma banda como meta, se somente o centro dela é que importa.

Ao lado, o leitor poderá ver um dos gráficos apresentados pelo ministro Guido Mantega no balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), também na quarta-feira. Percebe-se, pelo gráfico, que a inflação em quase todos os países que usam o sistema de metas ficou acima da banda anteriormente definida como meta. No entanto, o céu não desabou sobre os habitantes desses países, nem os juros foram catapultados para a órbita de Plutão porque a inflação ficou acima da meta.

Já o Brasil, considerando-se a inflação de 12 meses até abril, ficou 1,5% abaixo do limite máximo da meta. Entretanto, Meirelles e o BC aumentaram os juros – e com a perspectiva de continuar aumentando-os até, dizem os asseclas de Meirelles, atingir 14,25% em dezembro (cf. o site da famigerada “Veja”). Como notou o ministro Mantega, outro dos três países que ficaram com a inflação abaixo do limite da meta, o Canadá, encontra-se com a economia paralisada – e, poderia acrescentar, os juros canadenses também são quase insignificantes diante dos brasileiros.

ALARDE

Na verdade, quase todos esses países têm taxas básicas de juros imensamente menores do que as do nosso. Os que mais se aproximam do Brasil são a Austrália (5,5%) e a Turquia (5,3%). O quarto lugar do mundo, a Colômbia, tem uma taxa de 3,7% e o quinto, o México, 2,6%. Todos os outros países têm taxas inferiores, mesmo a maioria deles ultrapassando a meta de inflação.

Porém, apesar disso, o México não aumentou sua taxa de juros porque a inflação excedeu a meta em 0,7%, nem a Colômbia – apesar de toda a subserviência aos EUA do seu governo atual – aumentou-a porque a inflação ficou 1,4% além do teto da meta. Nem o Chile, cuja inflação ultrapassou em 4,5% a meta, ou a Islândia (4,7% a mais) ou a África do Sul (3,8% além da meta) pensaram em fazê-lo, apesar dos juros nesses países, se comparados aos do Brasil, parecerem quase microscópicos.

No entanto, se acreditássemos na conversa de Meirelles, qualquer desses países teria mais razão do que o Brasil para aumentar os juros – sob pena, supõe-se, de desaparecer do mapa se não o fizesse. Mas nenhum deles desapareceu, nem aumentou os juros.

Certamente, é inútil procurar alguma coerência em Meirelles, exceto se considerarmos seu verdadeiro objetivo: frear o crescimento, alcançado pela política do presidente Lula, em especial pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Não existe, a rigor, razão econômica para aumentar os juros agora e bloquear o crescimento. A ação do BC é, cada vez mais abertamente, política.

Meirelles & sequazes passaram semanas alardeando que a demanda (ou seja, o consumo da população) estava demasiadamente aquecida, ou, até mesmo, “superaquecida”; que havia um desequilíbrio entre oferta (produção) e demanda; que esse suposto desequilíbrio já estava levando a um surto inflacionário, que exigia aumentos de juros consecutivos para refrear o consumo.

FREIO

Na segunda-feira, véspera do primeiro dia da reunião do Copom, o IBGE divulgou que a indústria havia crescido, no mês de abril, 10,1% em relação ao mesmo mês do ano passado. Esse resultado significativo indicava que a oferta, a produção, estava avançando mais do que o consumo – portanto, era impossível o “superaquecimento” da demanda e o “desequilíbrio” propalado por Meirelles.

Mais ainda quando esse resultado da indústria foi obtido sem que a sua capacidade ocupada (isto é, a parcela da capacidade do maquinário efetivamente usada na produção) sofresse alteração. Como revelou a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a utilização da capacidade instalada ficou em 83,2% em abril, contra 83,1% em março. Portanto, quase 20% da capacidade instalada permaneceram sem utilização, mesmo com o aumento na produção – o que significa que os investimentos estão aumentando a capacidade da indústria a tempo de suprir o aumento de consumo, e que a folga da indústria para continuar aumentando a produção é, no momento, de quase um quinto da sua capacidade.

Pois bem, leitores, em 24 horas apareceram asseclas de Meirelles argumentando que o aumento da produção tornava ainda mais urgente o aumento dos juros. Porque, desse jeito, o povo ia se entusiasmar com a fartura de produtos à sua disposição (ainda por cima, mais baratos, ou seja, com possível inflação em queda) e ia começar a comprar, comprar, comprar, até que a indústria não tivesse capacidade de suprir a demanda desses tresloucados, sempre querendo comprar alguma coisa, aumentando, assim, a inflação. Logo, aumento de oferta só serve para aquecer a demanda, inflação em queda só serve para aumentar a inflação e crescimento da indústria só serve para aumentar juros.

Pelo jeito, o ideal de Meirelles é uma indústria que não venda os seus produtos e consumidores que não os comprem. Portanto, uma indústria que não produza, por falta de compradores, e consumidores que não consumam, por falta de dinheiro. Se a indústria cresce em relação ao consumo, é preciso aumentar os juros. Se o consumo cresce em relação à produção, também é preciso aumentar os juros. Sempre é preciso aumentar os juros para que o país não cresça.

Mas, voltemos ao gráfico: os EUA não constam dele, porque não usam metas de inflação – eles inventaram o sistema para os outros usarem, não para eles usarem. Veja-se o que diz o grande sacerdote da religião, quer dizer, do sistema de metas, Edwin Truman, ex-secretário-assistente do Tesouro dos EUA e ex-diretor do banco central americano. Em resumo, junto com o sistema de metas de inflação, eles inventaram uma classificação de países que os livra de usar o vomitório que receitam para os demais (cf., Edwin Truman, “Inflation Targeting in the World Economy”, 2003).

Porém, pela classificação de Truman, nós também não precisaríamos mais desse estrupício, uma vez que já atingimos inflação baixa, portanto estaríamos dispensados de, como ele diz, “sacrificar” a economia. Mas como tudo é encenação para roubar os outros países, basta um Meirelles no Banco Central que esses problemas de coerência estão automaticamente resolvidos. Afinal, nunca se ouviu falar de um ladrão que deixasse de roubar por considerações teóricas. Nessas horas, a teoria é enviada para o lixo sem precisar de substitutas, pois o negócio é roubar. E o resto que se dane.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: Como sempre a política daqueles que querem frear o desenvolvimento do Brasil, acaba prosperando. Exatamente aqueles que não querem um Brasil com desenvolvimento acabam utilizando-se de argumentações vazias para justificar sua política econômica perversa. No texto acima de Carlos Lopes, podemos inferir no quadro apresentado por Mantega, a posição em relação à questão inflacionária no que diz respeito ao desvio das metas dos demais países. Não é possível que num País como o Brasil em que precisamos gerar por ano 5 milhões de novos empregos, insiste-se nessa política retrógrada que visa apenas prestigiar especuladores de plantão.

O foco para combater a inflação deve ser o desenvolvimento, visando um aumento da produção, um aumento do mercado interno, só assim poderemos como a China, diminuir a ” ameaça” da inflação, que diga-se de passagem nem existe. Vamos crescer e aumentar a oferta, mas isso o Meirelles, o Copom, e os especuladores não querem, querem a inflação agora no “centro da meta”. Com isso querem transformar a inflação numa pauta política e pouco técnica.

Multinacionais dobram remessa de lucros no primeiro quadrimestre

Bancos lideram envio de recursos ao exterior: US$ 2,28 bilhões

As remessas de lucros e dividendos das corporações transnacionais instaladas no Brasil totalizaram US$ 12,358 bilhões no primeiro quadrimestre, mais que o dobro registrado no mesmo período do ano passado, quando somou R$ 5,175 bilhões. Esse espetacular crescimento do envio de recursos para o exterior foi puxado pelo setor bancário, que foi responsável por US$ 2,285 bilhões das remessas, o equivalente a 25,1% do total.

No governo FH, o segmento passou por um processo de acentuada concentração e desnacionalização, que foi proporcionado pelo Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (Proer) e Programa de Incentivo à Redução da Presença do Estado na Atividade Bancária (Proes), ao mesmo tempo em que tem seus lucros turbinados com a especulação com títulos públicos, regados por juros cavalares estabelecidos pelo BC. Só em abril as filiais de bancos estrangeiros remeteram US$ 3,696 bilhões, o triplo do que foi registrado no mesmo mês no ano passado.

A sobrevalorização do real em função dos juros altos é outro fator que tem favorecido o aumento das remessas de lucros e dividendos, pois rendem mais no momento da conversão das moedas.

De acordo com o Banco Central, os Estados Unidos são o país para onde é direcionada a maioria dessa bolada: 29%.

As montadoras tiveram a segunda maior participação no envio de recursos para suas matrizes: US$ 1,881 bilhão ou 20,7% do total.

O aumento exponencial na remessas de lucros e a queda no superávit da balança comercial provocaram um déficit externo recorde no quadrimestre de US$ 14,1 bilhões. O BC projeta um déficit em transações correntes – balança comercial, balança de serviços e transferências unilaterais – na ordem de US$ 12 bilhões para este ano.

Hora do Povo

Rizzolo: E tem gente que acha que isso é devido e merecedor, ora, a propria política do Banco central em promover as altas taxas de juros faz com que a remessa se torne atraente com um real valorizado. Entendo ser isso uma verdadeira sangria nacional, temos que implementar meios para haver um melhor controle dessas remessas, o aumento exponencial na remessas de lucros e a queda no superávit da balança comercial provocaram um déficit externo recorde no quadrimestre de US$ 14,1 bilhões. Ademais fica patente que a desnacionalização do setor bancário feita durante o governo FHC teve seus objetivos concretizados; esta aí para todos verem, US$ 12,358 bilhões no primeiro quadrimestre, mais que o dobro registrado no mesmo período do ano passado, quando somou R$ 5,175 bilhões. Bonito, hein !

Meirelles açula expectativa de inflação para o BC elevar juros

Meta de Meirelles é combater o crescimento, não a inflação

Em abril, o IPCA ficou em 5,04%, portanto dentro da meta estabelecida de 2,5% a 6,5%

No sábado, em entrevista à Agência Brasil, o presidente do Banco Central afirmou:

A) “… um aumento do superávit primário tem vantagens importantes (….). Isso tenderia a baixar as taxas de juros do país a longo prazo”.

Ou seja, ele propugna que os bancos passem a receber mais do Tesouro (“aumento do superávit primário”), mas, se depender dele, nem assim haverá baixa dos juros a curto prazo. Aliás, nem a médio prazo.

B) “… existe, sim, uma inflação de alimentos, mas não é só de alimentos. (….) Temos desde a inflação de matérias primas, metais, não metálicos, químicos, petróleo e uma atividade bastante aquecida levando também a uma inflação na área de serviços (….) o Banco Central vai manter a inflação na meta. (….) a taxa de juros juntamente com o sistema de metas de inflação têm se revelado no mundo todo como o mecanismo mais adequado para a aplicação da política monetária. (….) a meta de inflação (….) e a taxa de juros (….) é o sistema consagrado no mundo todo”.

Em que mundo vive o cara-pálida? Durante os 19 anos (1987-2006) em que ocupou a presidência do banco central norte-americano, Alan Greenspan se lixou para as metas de inflação. Onde foi que tal sistema foi “consagrado”?
Porém, o mais importante é que Meirelles garante aos habitantes do seu mundo que os juros vão continuar a subir… por causa da inflação.

PRETEXTO

No entanto, em abril, a inflação (IPCA/12 meses) ficou em 5,04%. Portanto, dentro da sua “meta de inflação” (formalmente estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional), que vai de 2,5% a 6,5%. Para maio, até os especuladores disseram esperar uma inflação de 4,73% em 12 meses (cf. o “boletim Focus”, do próprio BC, divulgado na segunda-feira, 26/05). Portanto, mais baixa ainda.

Então, de onde Meirelles tirou essa inflação aterrorizante, que estaria rondando a soleira da porta dos brasileiros? Obviamente, da sua necessidade de ter um pretexto para aumentar os juros.

Há um aumento de preços dos alimentos, devido à especulação desvairada no mercado internacional – um aumento sobre o qual, portanto, nada adiantaria um aumento de juros.

Porém, Meirelles resolveu transformar isso em inflação ampla, geral e irrestrita.
Com o presidente do BC propalando que a inflação está de volta, o que fará o atacadista, ou mesmo o dono da venda da esquina? Por que ele não se defenderia dos aumentos de preços com que terá de arcar, aumentando seus próprios preços? Se é o presidente do BC que está avisando que vem aí uma onda inflacionária, o que fará o fabricante e o comerciante, senão aumentar os preços por antecipação, para não ser vítima dos aumentos nas matérias-primas ou nos produtos já manufaturados?
Desde quando um presidente do BC pode: 1) dizer aos especuladores que os juros dos títulos públicos vão aumentar por um longo período? 2) dizer que aos industriais e comerciantes que seus preços vão aumentar? O incrível – nos perdoe o presidente Lula, cuja política de crescimento é a maior prejudicada com isso – é que Meirelles não seja chamado a responder perante a polícia e a Justiça.

O alvo, certamente, é a política de crescimento, sintetizada pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Por isso, Meirelles fala em “atividade bastante aquecida” e outros termos semelhantes. O indesejável é o crescimento e suas consequências – o aumento do emprego, do consumo, das vendas da indústria e do comércio, e o aumento dos recursos do Estado para o desenvolvimento.

Mas como Meirelles falsifica a inflação para criar uma onda inflacionária real – e, assim, ter pretexto para aumentar os juros sem que lhe caia na cabeça a espada proletária do supremo magistrado?

Para isso, ele inventou uma nova teoria: a de que não basta atingir a meta de inflação, isto é, ficar dentro da banda, mas atingir o centro da meta (4,5%) – senão o mundo cairá no abismo.

É verdade que o próprio sistema de “metas de inflação” é apenas uma excrescência inventada para extrair juros dos países periféricos. O critério desse sistema não é a realidade, mas um número artificial, que não leva em consideração as necessidades de crescimento, as potencialidades do país ou as carências da população. Repare-se que esse número (ou essa banda) só não é arbitrário em relação a uma questão: tem que ser o melhor possível para garantir que os juros continuem altos.

Assim, com uma meta artificialmente baixa, qualquer aumento da atividade produtiva e comercial parece provocar uma inflação quase desvairada. Na verdade, o que está errado é a meta, não a inflação. Esta aparece como alta apenas porque se escolheu uma meta completamente fora da realidade. Na definição da meta de 2005, Meirelles cortou a banda da inflação em 0,5, sem nenhum motivo e sem nenhuma fundamentação (cf. o testemunho do ex-ministro José Dirceu, HP, 14/05/2008).

Mas, como esses truques de mágico de mafuá não conseguem mais sustentar a política de juros altos, Meirelles fez duas inovações: a banda da meta de inflação deixou de ser banda. Só vale o “centro” da meta. A segunda inovação é propagandear a inflação, e, assim, provocar uma inflação verdadeira.

Na verdade, o sistema é tão frágil que até Meirelles é capaz de avacalhá-lo.

C) “Uma das razões da elevação do déficit de transações correntes é o aumento das importações, impulsionado pela demanda interna, que está bastante aquecida. Um dos mecanismos é exatamente um ajuste monetário que faz com que haja uma moderação desta demanda doméstica”.

Ou seja, também para a diminuição do saldo comercial, a solução é aumentar os juros. Que essa diminuição do saldo, com aumento das importações, tenha sido causado pela depreciação da cotação do dólar frente ao real, por sua vez causada pelos juros altos que atraem montanhas de dólares para dentro do país, é coisa que Meirelles passa por cima.

D) “É exatamente uma política monetária rigorosa, a não hesitação do Banco Central de manter a inflação na meta, é que garante o crescimento”.

ENTRAVE

Aqui passamos para o campo do franco cinismo. Não é o PAC nem os esforços do governo, os investimentos públicos, etc., que estão garantindo o crescimento. O que garante o crescimento são os aumentos de juros do Banco Central, justamente o maior entrave a que o país cresça. Mas talvez ele não esteja falando do Brasil. Pode ser que esteja falando da economia dos EUA. Realmente, uma das coisas que impede que ela vá para o necrotério esperar pelo sepultamento, são os bilhões que os bancos norte-americanos estão retirando do Brasil, sob a forma de juros, devido a Meirelles.
Mas, vejamos a última pérola. Perguntado sobre a efetividade de elevar o depósito compulsório dos bancos para reduzir um suposto “descompasso” entre a oferta e a procura, disse Meirelles que:

E) “Já está bastante acima da média e dos máximos praticados em outros países. A experiência do Banco Central, e de diversos bancos centrais do mundo, é de que o meio mais eficiente é exatamente o manejo da taxa básica, no caso do Brasil, a taxa Selic”.

Sintomático que ele diga que o depósito compulsório “já está bastante acima da média e dos máximos praticados em outros países”. E a taxa básica de juros, que é a maior do mundo, não está? Por que isso não serve como argumento para não aumentar os juros básicos?

Certamente, um aumento do depósito compulsório é também um aumento dos juros – mas não dos juros básicos, não dos juros dos títulos públicos, e sim das taxas dos bancos privados. Para Meirelles, portanto, não adianta qualquer aumento de juros, pois o objetivo do aumento é assaltar o Estado.
Hora do Povo
CARLOS LOPES

Rizzolo: Para Meirelles, a inflação parece ser um grande negócio. Na nobre argumentação clara e cristalina do impecável texto de Carlos Lopes, observa-se de que forma se dá a indução às propostas de mais aumento de juros, na visão anti desenvolvimentista de Meirelles, que em última instância, apregoa além de juros altos, uma maior transferência dos recursos do Tesouro aos bancos. (superávit primário).

O foco de um eventual combate à inflação que está ainda dentro do patamar, 2,5% a 6,5% seria sim, uma maior oferta de produtos de bens, desenvolvendo a produção, aumentando o mercado interno, para isso, como já disse inúmeras vezes o foco tem que ser o desenvolvimento e não o aumento dos juros focado apenas na inflação, o que traz inúmeros especuladores derramando no País uma quantidade enorme quantidade de dólares, valorizando ainda mais o Real, e impedindo as exportações ao mesmo tempo em que eleva o déficit de transações correntes. Só não vê quem é cego ou tem interesses em especular. Tenho pena do pobre empresário brasileiro, aquele que não consegue exportar, e observa os envios das enormes remessas de lucros feitas pelos beneficiados com a política do BC. Falta patriotismo, hein!

BC boicota ‘fundo soberano’ para aumentar o pagamento de juros

Para Meirelles, aumento da arrecadação, fruto do crescimento da economia, é dos banqueiros

O sr. Henrique Meirelles reivindica um status bastante peculiar entre os membros do atual governo. Vive a exigir que todo o governo o apóie, inclusive reclamando ao presidente Lula quando algum ministro ou autoridade declara que está contra ou, simplesmente, que não está totalmente de acordo com a política jurássica do BC. Mas não se acha obrigado a apoiar as medidas do governo – pelo contrário.

O apedrejamento do “fundo soberano” por parte dos corifeus de Meirelles e, inclusive, pelo próprio, mostra que seria de bom alvitre liberá-lo logo para que empreenda a sua anunciada campanha em Goiás. Caso contrário, corre-se o risco da política econômica, dentro em breve, se limitar meramente à aceitação dos aumentos de juros do BC – e adeus crescimento, emprego e distribuição de renda.

Na terça-feira, incensado por tucanos e ex-pefelistas, a que se somaram um ou outro incauto, Meirelles esteve na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Disse que é a favor do aumento do “superávit primário” (isto é, de aumentar o dinheiro que os bancos levam do Orçamento), mas que, independente disso, as altas de juros vão continuar (“No médio e longo prazo temos uma tendência de queda da taxa de juros. Mas isso não quer dizer que seja uma queda linear”, de onde se conclui que, na sua opinião, a melhor forma de baixar os juros a médio e longo prazo é aumentá-los a curto prazo). Porém, recusou-se a apoiar o “fundo soberano”, lançado no dia anterior pelo ministro da Fazenda, depois de aprovado pelo presidente Lula.

Meirelles passou ao largo do que havia sido anunciado pelo governo na véspera e, quando instado a manifestar-se sobre o assunto, disse que não era sua área, apesar de, evidentemente, a medida fazer parte da política monetária, isto é, da mesma área que os juros, as reservas e o BC.

Nesse dia, aquela mistura de funcionários de bancos externos, consultores que dizem o que interessa ao especulador que lhes paga, mal-amadas (porém bem remuneradas) que confeccionam colunas de “economia”, e outros tipos exóticos, protagonizava um ataque de nervos com o governo por causa do “fundo soberano”. Porém, Meirelles preferiu juntar-se à sua trupe do que defender o governo.

MAL-AMADAS

Alguns acabaram revelando o que lhes incomodava, ao chamar o “fundo soberano” de “BC paralelo”. Ou seja, o problema é que uma parte da política monetária – muito pequena, mas mesmo assim uma parte – está sendo tocada pelo Ministério da Fazenda e pelo Tesouro Nacional, que será o administrador do “fundo”, em vez do BC. Naturalmente, queriam que o BC, e, portanto, Meirelles, fossem os únicos a dar palpite sobre o assunto, como até agora. Concretamente, postulavam para Meirelles o poder absoluto sobre a política econômica, acima do presidente da República. E, como Meirelles apenas sabe aumentar juros, desconhecendo-se nele outro talento, querem que tenha poder absoluto para aumentar os juros.

Certamente, as demonstrações de hidrofobia não foram devidas aos defeitos e insuficiências – que, evidentemente, existem – da proposta do ministro Mantega. Por outro lado, reclamam que o governo não aumentou o “superávit primário” – ou seja, não aumentou a parcela do Orçamento destinada aos juros.

EXCEDENTE

Aí está a questão. Segundo o ministro da Fazenda, o “fundo soberano é como um cofrinho. Você ganha o salário, faz as despesas e sobram recursos. Aí você coloca no cofrinho. Vamos colocar no cofrinho o excedente”. Isto é, ele está propondo colocar no fundo os recursos da arrecadação de impostos que ultrapassarem a meta atual do “superávit primário”, equivalente a 3,8% do PIB.

Aumentar o “superávit primário” é destinar aos bancos o aumento da arrecadação, ou seja, desviar esse aumento, ou parte dele, para os juros. Pela proposta anunciada na segunda-feira, esse aumento da arrecadação, proporcionado pelo crescimento da economia, iria para um fundo, cuja principal função seria a de financiar empresas brasileiras no exterior. Portanto, a elevação do que é arrecadado da população através dos impostos não iria aumentar o que os bancos recebem por conta da dívida pública.

No entanto, os bancos que especulam com os títulos dessa dívida consideram que o aumento de arrecadação é uma propriedade sua – não pode ter outro destino senão os seus cofres. Daí a fúria dos leões-de-chácara dos monopólios financeiros – inclusive de Meirelles, não apoiando nem mesmo protocolarmente a proposta do governo de que faz parte.

Depois de seu depoimento no Senado, as apostas em torno do próximo aumento de juros começaram a roçar a estratosfera. No dia seguinte, quarta-feira, no chamado “mercado futuro”, a expectativa era que o Banco Central, na próxima reunião do Copom, aumentasse os juros básicos em 0,75.

No entanto, a mídia, os consultores (e as mal-amadas) atribuíram essa explosão nas apostas sobre juros ao fato de que o ministro da Fazenda não anunciou um aumento do “superávit primário” na segunda-feira, apesar do “fundo soberano”, ao capturar o crescimento da arrecadação de impostos, frear o aumento de gastos do governo – o que eles, há meses, vinham propugnando como única medida capaz de impedir um fantástico surto inflacionário e fazer os juros descerem do poleiro.

Mas, 48 horas depois que o governo anunciou o fundo e 24 horas depois que Meirelles depôs no Senado, as previsões de juros dispararam. É evidente que só poderiam disparar, com o presidente do BC dizendo publicamente que, aconteça o que acontecer, os juros vão ser aumentados.

O “fundo soberano” é, implicitamente, uma tentativa de impedir a alta de juros sem enquadrar o BC. A lógica é combater uma suposta inflação retirando recursos que o governo poderia gastar. Assim, não seriam necessários novos aumentos de juros.
Mais importante do que assinalar que essa lógica não é muito lógica, é notar que a disparada de juros que Meirelles está abertamente fomentando faria o governo gastar mais com eles – e, portanto, sobrar menos recursos para o “fundo soberano”.
Certamente, a forma mais eficaz de baixar os juros é baixar os juros. Naturalmente, ela não é possível com Meirelles à solta no BC. Mas, com Meirelles, outra maneira também é impossível.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: No excelente texto de Carlos Lopes, podemos inferir a demanda perversa do BC por mais recursos, ou seja, aumentar o “superávit primário” com o intuito de destinar aos bancos o aumento da arrecadação, ou seja, desviar esse aumento, ou parte dele, para os juros. O Fundo Soberano vem de encontro à louvável intenção do governo, cuja principal função seria a de financiar empresas brasileiras no exterior. As alegações de que o Fundo Soberano seria uma forma de intervir no câmbio é uma balela e argumentação que serve aos interesses daqueles que querer a perpetuação das altas taxas de juros, mirando-se no combate à inflação somente através do aumento das taxas de juros, esquecendo por completo a prioridade no desenvolvimento e no aumento da produção como medida de controle inflacionário. Leia artigo meu publicado na Agência Estado sobre Fundo Soberano: Fundo Soberando, uma questão política ?