CNI repele juros do BC e diz que setor está preparado para o crescimento

Utilização da Capacidade Instalada recua em fevereiro para 82,9%, por conta do aumento dos investimentos

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) contestou as alegações do Banco Central de que o setor não estaria em condições de suprir a demanda por bens de consumo em função do esgotamento da capacidade de produção. Dados sobre produção e consumo divulgados na última semana não confirmam as avaliações do BC usadas para justificar uma elevação da taxa de juros.

Os economistas Paulo Mol e Flávio Castelo Branco, da CNI, afirmam que não há motivos para o aumento dos juros. De acordo com a última pesquisa Indicadores Industriais, divulgada no início do mês, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) recuou em fevereiro para 82,9%, contra os 83,1% registrados em janeiro, por conta do aumento dos investimentos. “A capacidade de produção está aumentando. Enquanto a economia cresce a 5% ao ano, a formação bruta de capital fixo (que mede os investimentos produtivos) cresce a mais de 10% há oito trimestres”, declarou Paulo Mol. Segundo ele, a queda do NUCI é um claro sinal de que a indústria está acompanhando o crescimento da demanda interna: “O setor está preparado para esse crescimento, porque está investindo”.

Para Flávio Castelo Branco, uma eventual elevação dos juros básicos seria uma “precipitação”. “O Índice de Preços no Atacado (IPA, que mede a inflação na indústria) fechou na casa dos 3% no ano passado, abaixo da inflação dos outros setores, e não está tendo nenhum sinal de aumento neste ano. Não há porque aumentar juros nesse momento, ainda mais com a indústria mostrando capacidade de atender todos os pedidos”, disse.

O BC pregou o aumento da taxa básica de juros (Selic) para a próxima reunião do Copom, nos próximos dias 15 e 16, através de seu Boletim Focus – elaborado junto a especuladores autodenominados “especialistas de mercado”. Tais “especialistas” consultados pelo BC esperam um aumento de, no mínimo, 0,25 pontos percentuais, elevando os juros dos atuais 11,25% ao ano para 11,50%. Eles também “prevêem” que a Selic fechará 2008 em 12,5%, ou seja, sucessivos aumentos dos juros até o final do ano.

Antes do Boletim Focus desta semana, o presidente do BC, Henrique Meirelles, já havia divulgado na última ata do Copom um “descompasso entre a oferta e a procura” projetado para o futuro. Isso poderia ocorrer caso não houvesse investimento para ampliar a oferta de bens a tempo de suprir o aumento da demanda, acarretando em desabastecimento e escalada da inflação. Mas não é isso que vem ocorrendo no país. Ao contrário.

Nos últimos anos, os investimentos estão crescendo em ritmo mais acelerado do que a demanda. De acordo com o IBGE, no ano passado o consumo da população aumentou 6,5% e os investimentos cresceram 13,4%. As compras de máquinas e equipamentos pelos setores público e privado foram ampliadas em 30% nos últimos três anos.

Para a CNI, o aumento das taxas de juros será um freio “desnecessário” ao crescimento da economia, inibindo os investimentos e reduzindo o consumo.Para a técnica do Procon-SP Renata Reis, “há fortes indícios de alinhamento de preços e, se isso se confirmar, as medidas do BC se revelarão inócuas”.

Hora do Povo

Rizzolo: Muito embora os números anunciam uma equidade entre o consumo e a produção, e o melhor indicador é o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) que recuou em fevereiro para 82,9%, contra os 83,1% registrados em janeiro, por conta do aumento dos investimentos, Meirelles a pedido dos especuladores internacionais, provavelmente não se ” convencerá” e tentará aumentar a taxa de juros agraciando ainda mais aqueles que especulam no Brasil.

Outro dia ouvindo uma palestra e depois conversando com o nobre economista Pochmann, dizia ele que na China a preocupação sempre foi combater a inflação aumentando a produção; se aumentarmos a produção e fortalecermos o mercado interno baseado em investimentos no setor produtivo, iremos gerar mais empregos e ao mesmo tempo combatermos a inflação. Agora Meirelles não tem o foco na produção, no investimento, na geração de emprego, mas sim em aumentar os juros para combater a inflação diminuindo a demanda, e favorecendo a banca internacional. Ora, precisamos crescer, necessitamos gerar no mínimo 4 milhões de empregos por ano. Assim não podemos continuar. Ou isso tudo é receio de um Brasil forte numa fase em que os EUA estão se enfraquecendo?

BC quer elevar juros para ver se derruba popularidade de Lula

Predadores da economia insistem em frear a produção e o consumo

Para manter os juros altos, Banco Central sacode o espantalho da inflação, mesmo quando não há risco inflacionário à vista

O Banco Central, na última reunião do Copom (Conselho de Política Monetária), pregou abertamente o aumento da taxa de juros. Já antes da divulgação da ata da reunião, conhecidos porta-vozes dos bancos na mídia haviam propugnado essa medida – fundamentalmente de freio ao crescimento econômico e ao emprego – como necessária para evitar isto ou aquilo. Ou, na linguagem esotérica da ata do Copom: “Um ajuste da taxa básica de juros contribuiria para reforçar a ancoragem das expectativas, não apenas para 2008, mas também no médio prazo, e para reduzir o descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas”.

“Ancoragem” de que expectativas? Como é óbvio, navios ancorados não navegam. Todas as expectativas do país são de que a economia continue crescendo, criando empregos e aumentando a renda dos brasileiros. Portanto, o BC está claramente se arvorando em não permitir que a economia continue a navegar sem entraves artificiais, em não permitir que ela cresça – ou, pelo menos, em não permitir que ela cresça além do medíocre. Daí essa “ancoragem” pelos juros altos. Em suma, o BC está pregando o entrave, a obstrução da economia, em oposição ao objetivo declarado pelo presidente Lula um pouco antes de lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): “desobstruir, desentravar a economia”.

Note-se que Meirelles e cia. não estão se referindo apenas a este ano, mas ao “médio prazo”, ou seja, ao restante do atual mandato presidencial. Quanto ao “descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas”, lembremos mais algumas coisas.

O Brasil teve, em 2007, um crescimento de 5,42%, segundo o IBGE. O leitor deve se lembrar quando, em 2006, logo após a sua reeleição, o presidente Lula definiu que 5% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) era o mínimo que o país necessitaria a partir do ano seguinte (V. p. ex., nossa edição de 17/11/2006). Na época, o presidente foi chamado de, no mínimo, irresponsável e maluco, por ter dito que era preciso “deixar para trás essas taxas medíocres de crescimento”.

SABOTAGEM

Especialmente a diretoria do BC dedicou-se a sabotar a meta estabelecida pelo presidente. Segundo os luminares sob a chefia do sr. Meirelles, o Brasil só poderia crescer, no máximo, 3,5%. Caso contrário, seria a inflação e nada menos que o caos, pois, como é que a nossa economia iria alcançar um crescimento desses sem ir para o abismo? Houve, então, clamores pelo aumento da taxa de juros para “refrear o consumo”, berros sobre a catástrofe que viria se o povo gastasse – e, portanto, ganhasse – mais, e parece que não faltou quem culpasse a falta de moderação dos nordestinos na hora das refeições pelo desastre que se aproximava. Os coristas não eram muitos, mas eram um bocado barulhentos: do BC a filósofos e filósofas do coturno mental da senhorita Leitão (famosa pela genial descoberta de que “quanto mais o governo arrecada, mais ele gasta” e outros princípios igualmente geniais).

Não era a primeira vez, durante o mandato de Lula, que tal ocorrera. De novembro de 2003 até quase o final de 2004, o BC, pressionado pelo presidente e pela sociedade, foi obrigado a diminuir os juros reais básicos. O resultado foi um crescimento de 5,71% em 2004. Porém, logo depois, em meio a um charivari semelhante ao atual, os juros voltaram a subir. O resultado foram taxas de crescimento de 3,16% (2005) e 3,75% (2006) – ou seja, taxas em torno do “máximo” decretado pelas capacidades do BC.

No entanto, em 2007, a política do governo havia mudado. Passaram-se os meses e o ambiente econômico também mudou. Embora ainda no início de sua retomada, a ação do Estado foi suficiente para que o país ultrapassasse a meta de crescimento estabelecida. Como até o Meirelles deve ter notado, a inflação não explodiu e não houve hecatombe, exceto, talvez, a sua continuação na presidência do BC.

Uma economia como a brasileira, diante de uma política de desenvolvimento, reage rápida e positivamente. É preciso ter alguma substância esquisita na cabeça para acreditar que um país grande, abundante em riquezas naturais, e já relativamente desenvolvido, só pode crescer 3,5% ao ano, ou menos.

Seriam inexplicáveis tais crenças exóticas, se não fosse evidente que todo esse mal-ajambrado mafuá “econômico” tem apenas o rasteiro objetivo de manter os juros altos. Não é pelo risco de inflação que a diretoria do BC insiste nos juros altos. Pelo contrário. É para manter os juros altos que eles sacodem o espantalho da inflação, mesmo quando não há risco inflacionário à vista.

Da mesma forma, o limite máximo de 3,5% ao crescimento era somente um pretexto para manter os juros altos. Se o Brasil não pode crescer mais, o que fazer para que não cresça? Aumentar os juros, é claro. Mas porque ele não pode crescer mais do que isso? Porque, para que ele cresça, seria preciso não aumentar os juros, e é isso o que eles não querem fazer.

Hoje, não é para proteger o país da crise dos EUA que eles querem aumentar os juros. Se quisessem realmente, fariam o contrário: baixariam os juros para possibilitar ao país, como em outras crises da metrópole dominante, desenvolver-se, tornando-se mais independente, baseando o crescimento em nosso potencialmente grande mercado interno, substituindo importações pela produção nacional e dirigindo a poupança interna para a produção.

No entanto, como é exatamente isso o que não querem, já projetaram no futuro um “descompasso entre a oferta e a demanda”. É óbvio que, em qualquer processo de crescimento, se não há investimentos que possibilitem um aumento da oferta de bens, o aumento da procura (demanda) leva ao desabastecimento e, numa economia capitalista, à inflação.

No entanto, no Brasil os investimentos têm crescido mais rapidamente que a demanda de bens pela população. Em 2007, o consumo, segundo o IBGE, aumentou 6,5%, enquanto os investimentos cresceram 13,4%. Os investimentos públicos e privados em máquinas e equipamentos (ou seja, em ampliação da oferta) aumentaram 30% nos últimos três anos. A capacidade instalada da indústria, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), aumentou 7% em 2007 e a previsão é que se amplie em 11% ao final de 2008. Em relação ao PIB, houve um aumento de 15,9% (2005) para 17,6% (2007) na taxa de investimento (formação bruta de capital) da economia. A meta – que consta da “Política de Desenvolvimento Produtivo” que será lançada pelo governo – é aumentar essa taxa para 21% em 2010.

Além disso, as indústrias ainda mantêm uma folga de 15 a 17% de sua capacidade, que está ociosa, ou seja, ainda não está sendo usada para suprir a procura de mercadorias. Aliás, devido ao aumento da sua capacidade instalada, mesmo com o crescimento econômico, a capacidade ocupada pela produção mantém-se estável desde 2004, segundo os dados da FGV. A média da capacidade ocupada até diminuiu ligeiramente entre novembro de 2007 (83,7%) e fevereiro deste ano (83,3%). Segundo a FGV, os dados com ajuste sazonal (ou seja, expurgados de variações devidas à época do ano) têm trajetória semelhante.

Naturalmente, a evolução dos investimentos (ou seja, de ampliação da oferta) depende dos juros. Se eles aumentarem, evidentemente, isso não será um incentivo para que os empresários aumentem a oferta de produtos, pelo contrário. Portanto, o aumento de juros propagandeado pelo BC, além de refrear o consumo é uma forma de, também, restringir a oferta de mercadorias à população. Não se trata de combater qualquer descompasso entre oferta e procura, mas de golpear ambos. E tudo para manter os juros altos – ou seja, para beneficiar um ínfimo número de banqueiros, agiotas e predadores da economia.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: O texto é de uma ótima análise, não resta a menor dúvida que o BC não tem interesse em desenvolver a economia gerando um mercado interno cada vez mais robusto. Ao contrário, com a política perversa das altas taxas de juros, quer sim frear a economia beneficiando aqueles que transformaram o Brasil num grande Cassino, os especuladores. Não é possível que Meirelles e turma do Copom insistam nessa versão econômica arrasadora e que apregoa a financeirização da economia brasileira.

Na verdade, não acredito que a questão esteja em derrubar a popularidade de Lula, mas sim em perpetuar os altíssimos ganhos dos especuladores, o próprio Antônio Erminio de Moraes, um dos maiores empresários brasileiros já advertiu várias vezes sobre essa questão dos juros. Não podemos mais suportar essa enxurrada de dólares que entram via especulação e que desestabilizam o nosso câmbio, trazendo problemas na balança comercial. Hoje o pobre empresario nacional não consegue exportar face ao câmbio valorizado.

Não há dúvida que o crescimento implica em demanda, temos sim que aumentar a produção, para que possamos ter condições de oferta e equilibrar a produção e a demanda. Isso é sim é combater a inflação, aumentando a oferta, o desenvolvimento, a produção, e não ao contrário como assim querem os representantes da agiotagem internacional. Em todo o ano passado, o superávit comercial do país foi de US$ 40 bilhões, resultado de exportações de US$ 160,6 bilhões e importações de US$ 120,6 bilhões.

Para este ano, a previsão é que o saldo comercial caia 30%, para US$ 28 bilhões. Essa estimativa é do mais recente boletim Focus, pesquisa que o Banco Central realiza semanalmente com cerca de cem instituições financeiras sobre as projeções de diversos indicadores da economia brasileira.

Banco Central insiste na pista da direita

As bombásticas declarações de cunho heterodoxo do diretor gerente do FMI, Dominique Staruss-Kahn, levou os conservadores que apregoavam uma linha de austeridade econômica, a uma triste realidade às avessas. Simplesmente além de estarem fora de moda no ” cutting edge ” econômico internacional, seguem uma receita que há muito todos desconfiam errada; a do Consenso de Washington, a do Estado mínimo.

O caminho desgastado com ênfase na revisão do papel do Estado, no corte do gasto, no ajuste fiscal em em outras receitas de contenção, entrou definitivamente num ciclo de esgotamento. A receita heteroxa da maior potência econômica do mundo, com a preconização do aumento do gasto público para combater a recessão, ratifica o repensar a política econômica que os amantes do neoliberalismo representados pelo Copom e o BC insistem em mante-la, direcionando o investir no financeiro e na especulação face a altas taxas de juros, preterindo os investimentos na produção, dificultando as exportações, e e estrangulando o desenvolvimento do mercado interno.

Como que numa rodovia, insiste o BC brasileiro em andar na pista da direita, não acelerando, aumentando o tráfego, não deixando a economia fluir, represando o desenvolvimento sob a batuta dos velhos argumentos, como a inflação, e o aquecimento do mercado interno, esmerando-se na defesa apaixonante de teorias que nem os próprios inspiradores nelas não mais acreditam. Logo após a notícia sobre o novo posicionamento do FMI, rapidamente, como numa força tarefa, surgiram economistas conservadores fornecendo dados frágeis na tentativa de dar sustentabilidade na argumentação política – econômica de Meirelles, com alegações de toda sorte, como ” elevar os gastos talvez não seja idéia boa nem para os EUA”, ou então, ” poucos países em dificuldade teriam condições de ampliar fortemente seus gastos “.

O problema do Brasil é demanda superaquecida ” tentando enfim, todos, promover justificativas, para prosperar um “apóio” para a política recessiva implementada pelo BC. Pouco são os economistas com lucidez como Márcio Pochmann, presidente do IPEA, que já vinha há tempos defendendo políticas desenvolvimentistas baseadas na aceleração da economia, que hoje são chanceladas pelo próprio FMI, numa cabal demonstração que as instituições econômica multilaterais, optaram pelo paulatino abandono da cartilha neoliberal.

A verdade é que hoje, vivemos um ciclo de expansão da economia fundada nos investimentos. Temos, sim uma dívida pública de 43% a 44% do PIB (Produto Interno Bruto), por outro lado, essa dívida, também representa um crédito vez que esse dinheiro está em circulação. Como afirma Pochmann ” O nosso desafio para sustentar o crescimento, é fazer um deslocamento. Com cuidado, do que está hoje na ciranda financeira para o investimento produtivo “. Isso se faz reduzindo os juros, aumentando o mercado interno, e claro, propondo um estímulo fiscal responsável, para elevar a demanda agregada dando sustentabilidade ao consumo em fases críticas. Como apenas não é dão aos mortos o direito a mudar de idéia, talvez Meirelles, ou outro que o suceda, acelere a economia e passe enfim para a pista da esquerda. Conselhos não faltam…

Fernando Rizzolo

Copom mantém juros nas alturas e sem viés de baixa

Instinto de Lula não se enganou quando ele falou, com Meirelles presente, na reunião ministerial: “esta mesa aqui parece a Santa Ceia”

Disse o presidente Lula, na reunião do seu Ministério na quarta-feira, que “esta mesa aqui parece a Santa Ceia”. Mais uma vez não se enganou o instinto operário do nosso presidente. Veja, leitor, o que aconteceu.

Na tarde do mesmo dia, um dos participantes da reunião esgueirou-se em meio ao crepúsculo vespertino que anunciava a noite, lentamente encobrindo a capital da República, escoando-se sorrateiramente em direção ao Banco Central. Poucas horas depois, o Copom – isto é, a diretoria do BC – anunciou que a taxa básica de juros estava mantida em 11,25% e sem qualquer perspectiva (“viés”) de baixa. Pior ainda, foi a terceira vez seguida que os juros foram mantidos inalterados, sem que existisse qualquer razão para isso – e existindo todas as razões para baixá-los.

O elemento que se esgueirou da reunião do Ministério para a atmosfera crepuscular de Brasília foi o presidente do BC e do Copom, Henrique Meirelles.

INFORMANTE

Portanto, razão tem o nosso presidente. A reunião do Ministério foi uma verdadeira Santa Ceia. Não faltou nem mesmo um Judas Iscariotes. Dizem até que havia dois, se contarmos com o ministro da cultura alienígena, aliás, “globalizada”. Mas este, pelo menos, não proferiu mais um aforismo sobre o não-ser sendo um ser sem ser um não-ser sendo – notória especialidade filosófica que desenvolveu ao longo dos anos etéreos de sua existência.

Já Meirelles, na falta do ministro Mantega, acometido por um mal-estar odontológico, foi o informante da reunião. Conseguiu dar um informe sobre a crise americana e seus reflexos no Brasil em dez minutos. Dentro em breve ele conseguirá resumir a obra de Adam Smith em menos tempo ainda… Se é que ele ouviu falar nesse pensador escocês. Embora, pensando bem, 10 minutos de Meirelles devem ter sido muito mais do que a maioria dos ministros – e demais seres humanos – pode suportar sem que apareçam sinais premonitórios de convulsões e outros fenômenos desagradáveis.

Na reunião, Meirelles disse que não havia perigo para o Brasil na crise norte-americana, já que nossas exportações para aquele país são apenas 15% do total que vendemos no exterior. Em suma, parece ter repetido o que já havia dito alguns dias antes – a de que nosso crescimento está baseado no mercado interno, por isso a crise dos EUA não nos afetará.

Tudo isso é verdade – ou, pelo menos, tem tudo para ser verdade. Com o mercado interno que temos, uma crise nos EUA pode ser muito benéfica para o Brasil. A condição primordial para isso, naturalmente, é o aumento do poder aquisitivo da população, ou seja, o aumento do salário real e o aumento do crédito aos consumidores e às empresas. O que implica, evidentemente, na queda dos juros. Mercado significa, precisamente, gente que possa comprar mercadorias produzidas pelas empresas e, também, empresas que, para produzir, possam comprar mercadorias de outras empresas. Com os juros nos níveis atuais, boa parte, talvez a maior parte da população, ainda está fora do mercado – simplesmente porque não tem dinheiro para comprar nem mesmo produtos essenciais para uma vida civilizada.

Porém, Meirelles, depois de garantir ao presidente e aos ministros que o Brasil não será afetado, foi fazer jus aos trinta dinheiros – aliás, meio bilhão de dólares – que recebe do BankBoston. Na reunião do Copom, a taxa básica de juros brasileira, a Selic, foi mantida em patamares próximos ao pico do Monte Elbert, ponto mais alto das Montanhas Rochosas norte-americanas.

E os juros altos foram mantidos porque, segundo disse o Meirelles do BC, ao contrário do que disse o Meirelles do Ministério, “o Brasil não está imune à crise”. Realmente, mantendo os juros no espaço, não está mesmo.

Interessante que o banco central dos EUA, o FED – instituição privada mantida pelos monopólios financeiros dos EUA – acaba de baixar os juros em 0,75 pontos percentuais. Antes disso, já havia baixado os juros em setembro, outubro e dezembro. Ou seja, se o problema fosse manter uma taxa “atrativa” para o capital especulativo forâneo, Meirelles poderia baixar os nossos juros e ainda manter essa “atratividade”. Mas é óbvio que o problema dele não é só manter uma taxa “atrativa” para os especuladores externos, e sim encher os cofres deles com o máximo de recursos do nosso país que seja possível. Daí a manutenção dos juros em 11,25%.

A crise norte-americana é uma oportunidade do Brasil crescer de forma mais desimpedida. Aliás, sempre foi assim em todas as crises econômicas nos países centrais, quando o país foi governado a partir de dentro do Brasil e não a partir de fora. Manter os juros altos agora é o sinal para que os especuladores de outras bandas do planeta, em especial Wall Street e adjacências, saqueiem o nosso país para tentar cobrir seus prejuízos.

Ao mesmo tempo, os juros altos restringem o mercado interno, questão que se torna aguda no momento em que é provável uma diminuição em nosso saldo comercial (exportações menos importações). Por isso, a queda dos juros, o aumento do crédito, é essencial para as empresas, para a população e, portanto, para o país. Mantê-los altos é importar a crise dos EUA em troca de exportar dinheiro para lá.

Os juros altos, portanto, restringem o mercado, restringem a produção – e com isso a capacidade do país se desenvolver com a crise dos países centrais, que é também uma crise de sua dominação econômica sobre os países periféricos.

Mas, segundo Meirelles, “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés. O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”.

FIGUEIRA

A inflação entrou aí – já que o presidente falou em Santa Ceia – como Pilatos no credo. Não há nenhuma ameaça de surto inflacionário. E, mesmo que houvesse, só os cabeças de bagre do Copom é que acham – se é que acham – que a solução para a inflação é aumentar os juros, isto é, deixar todo mundo sem dinheiro, exceto meia dúzia de bancos e monopólios privados, em geral externos.

Quanto ao resto da macro-bobagem acima citada, não é novidade perceber que todo Judas é um vigarista – e há alguns que são, mesmo, macro-vigaristas. Porém, não é todo Judas que tem a decência de se enforcar na primeira figueira à beira da estrada. Como não temos a pretensão de ser Jesus Cristo, é preciso botá-los fora da Santa Ceia para que o país não seja crucificado, morto e sepultado.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo: Fica claro que se temos que fortalecer o mercado interno para blindarmos ainda mais nossa economia, a manutenção das taxas de juros não faz sentido; até porque não existe um perigo eminente de inflação. Também fica patente provável possibilidade da queda dos preços das commodities, o que justificaria também um aquecimento maior do mercado interno. Assim sendo, a quem interessaria as taxas de juros nesse patamar? A resposta é: aos especuladores internacionais, ao dinheiro nervoso, do ganho rápido, que não é investido na produção e que não gera desenvolvimento, emprego, robustez econômica.

Outro fator de defesa da economia brasileira e que vem corroborar as justificativas contra a manutenção destas taxas, são as reservas internacionais – US$ 185,024 bilhões até o dia 18, conseqüência dos saldos comerciais elevados que o país gerou desde 2003. Essas reservas poderão ser usadas pelo governo, para defender o real e evitar fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país, caso isso venha a ocorrer. Isso neutralizará possíveis riscos de reaceleração inflacionária, evitando que o Banco Central eleve a taxa de juros o que provocaria uma retração econômica. Agora, realmente foi a reunião do Ministério foi uma verdadeira Santa Ceia. Não faltou nem mesmo um Judas Iscariotes, e o sacrificado, se continuar prevalecendo essa política de Cassino, vai ser mais uma vez o povo brasileiro.

A preocupação é maior do que o corte de juros

Uma das características da atual crise americana que se iniciou com a questão dos ” subprimes”, é o fator confiança. A profundidade da eventual recessão americana é que o mercado se questiona. A obscuridade do problema face aos mercados globalizados, leva os investidores a uma análise, a meu, ver perfunctória da realidade, que pode ser maior ou menor do que tende a aparentar.

O mercado teme que a medida emergencial do banco central americano (BC) de cortar os juros básicos no país em 0,75 ponto porcentual, para 3,5% ao ano, não seja suficiente para estimular o sentimento em meio aos temores crescentes de recessão nos EUA e o tombo das bolsas européias e asiáticas nos últimos dois dias.

Não resta a menor dúvida que o problema é grave na medida em que difícil é mensurar ou quantificar a extensão da questão econômica americana. Além disso é importante salientar que a China possui uma boa quantidade dos chamados ” títulos podres” e que de certa forma também sera afetada pela crise.

Quando o Fed concretizou as apostas do mercado, deixou transparecer sua preocupação com a saúde da economia norte-americana. “O comitê tomou esta ação à luz do cenário de enfraquecimento econômico e aumento dos riscos de baixa para o crescimento”, disse o Comitê de Mercado Aberto do Fed, em comunicado. Isso fez com que o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York abrisse o pregão em forte queda, ontem.

Na Europa, o comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da União Européia, Joaquin Almunia, declarou que retração dos EUA não deve atingir diretamente o crescimento da zona do euro. Ele admitiu que a queda nas bolsas européias ontem mostrara “que os mercados estão considerando a possibilidade de uma desaceleração mais pronunciada, possivelmente, uma recessão, nos EUA”. Entretanto, disse, a UE não está tão vulnerável quanto no passado. “No passado, nossas economias eram mais dependentes da dos EUA”, disse Almunia.

No Brasil poderá haver um impacto sobre o preço das commodities, devido ao esperado enfraquecimento da economia global, e isso não seria nada bom face ao fato da nossa economia não deter uma produção de manufaturados estruturada, sendo vulnerável e dependente dos preços das mesmas, contudo, o que mais afetaria seria as exportações, o que seria compensado exatamente com investimentos de estrangeiros e brasileiros que estão interessados no aquecido mercado consumidor doméstico, que cresce a taxa superior a 10%. A primeira amostra disso deu-se ontem, após acumular perdas de quase 16%, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) ganhou força e descolou das Bolsas americanas, sua principal referência externa. Vamos ver no que vai dar daqui para frente.

Fernando Rizzolo

IEDI: “a última coisa que o BC deveria fazer é elevar os juros”

Incentivar o mercado interno é a melhor política a ser adotada diante da crise dos Estados Unidos

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou na segunda-feira com uma queda de 6,6%, em 53.709 pontos, mesmo dia em que também foram registradas expressivas quedas nas bolsas européias e asiáticas. O pano de fundo, obviamente, é a grave crise em que se encontra a economia norte-americana. Como a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, os defensores dos juros altos já saíram defendendo a elevação da taxa básica de juros para supostamente enfrentar possíveis turbulências externas.

Além dos analistas da mídia antidemocrática, o boletim Focus – que o BC divulga semanalmente com uma pesquisa com representantes do sistema financeiro e que serve de parâmetro para as decisões do Copom – aumentou sua projeção da taxa Selic para 11,25%, contra 11,13% feita anteriormente. O presidente do BC, Henrique Meirelles, sinalizou que poderá adotar medidas preventivas, que têm se traduzido nos juros siderais ao longo anos. “Não temos ilusão de que o Brasil está imune à crise, mas entendemos que estamos mais preparados”, disse.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), em sua análise intitulada ”A crise e os mecanismos de defesa da economia brasileira”, defende que o país está em condições de se proteger contra efeitos negativos de crises provenientes do exterior. O primeiro fator está no fato de que nos últimos anos a economia brasileira “apoiou-se muito mais no mercado interno do que no mercado externo, o que reduz o impacto de uma retração de volumes e preços de exportações devido à retração da economia mundial”. É isso, diz o Iedi, que “torna maior o alcance de políticas de incentivo ao mercado interno através do crédito, por exemplo, que poderão ser adotadas caso o quadro internacional se agrave e ameace levar à retração a economia doméstica”.

MENOS JUROS

Ampliar o crédito para fortalecer o mercado interno significa ter que reduzir os juros, como, aliás, defende o Instituto: “A última coisa que o Banco Central deveria fazer no presente momento da economia nacional e internacional seria elevar a taxa de juros”. Até porque, ao contrário do pretexto usado por Meirelles, não “serviria para o controle da inflação”.

RESERVAS

Outro fator de defesa da economia brasileira destacado pelo Iedi são as reservas internacionais – US$ 185,024 bilhões até o dia 18 -, “conseqüência dos saldos comerciais elevados que o país gerou desde 2003”. Essas reservas poderão ser usadas pelo governo, argumenta o Iedi, “para defender o real e evitar fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país, caso isso venha a ocorrer. Isso neutralizará possíveis riscos de reaceleração inflacionária, evitando que o Banco Central eleve a taxa de juros o que provocaria uma retração econômica”.

Nesse aspecto, cabe destacar a política adotada pelo governo Lula em diversificar o comércio exterior brasileiro, em especial a de fortalecimento do Mercosul. Assim, de um saldo negativo de US$ 999.243 no comércio com os países do bloco em 2003, o Brasil saltou para um superávit de US$ 5,723 bilhões no ano passado.

Para o Iedi, tanto o incentivo do mercado interno, através de crédito, quanto a utilização das reservas para uma eventual defesa do real, “se bem manejados pela política econômica, assegurarão um crescimento razoável em 2008, mesmo levando-se em conta as adversidades externas. O governo não deve hesitar em usar esses mecanismos para a defesa da economia real”.

O Iedi considera que a turbulência ocorrida nas bolsas no sistema financeiro ocorrida no dia 21 “não reflete de fato nenhum evento novo. Sua causa última são os problemas da economia americana originados da crise do mercado de crédito imobiliário desse país. A maior instabilidade foi detonada pelo impacto negativo dos enormes prejuízos acumulados pelas instituições financeiras, sediadas principalmente nos EUA, que agora, seis meses após o início da crise, vieram a público com a divulgação dos resultados do último trimestre de 2007”.

VALDO ALBUQUERQUE

Rizzolo: Ao analisarmos as declarações do Meirelles, observamos que desde já ensaia um aumento das taxas de juros, o que seria uma atitude deplorável. Temos um mercado interno aquecido mas que não justifica uma aumento das taxas de juros, muito pelo contrário, devemos sim aumentar o mercado interno para que possamos blindar ainda mais nossa economia através de crédito. Ademais, com as taxas de juros altas, atraímos especuladores que inundam o mercado com dólares mantendo o real valorizado, e por conseqüência uma dificultando as exportações.

Quanto a utilização das reservas para uma eventual defesa do real, acredito ser um instrumento a ser usado numa situação emergencial, com isso, evitaríamos fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país. É na realidade um instrumento de controle cambial. Isso neutralizará possíveis riscos de reacelerarão inflacionária, evitando que o Banco Central eleve a taxa de juros o que provocaria uma retração econômica.

As taxas de juros e a crise americana

Antigamente dizia-se que “quando os EUA tosse, o mundo fica doente “, indubitavelmente, a irresponsável crise dos subprimes nos EUA, afetará de uma forma ou de outra a economia mundial. Muitos são os sinais de uma recessão na América, contudo, o panorama econômico mundial tende a estar menos descompensado, face ao desenvolvimento dos mercados da China e da Índia. Até mesmo a Rússia, vive um período de prosperidade face ao preço do petróleo. A origem da crise americana, é a desregulamentação do setor financeiro dos EUA, cujos bancos a seu bel prazer, criaram veículos tão complexos e deliberadamente obscuros – todos concebidos para gerar lucro em cada operação de ” swap” ( troca de indexadores), que perderam há tempos a referência do valor real dos papéis. Fica claro, que a velha Lei de Mercado de Capitais, criada na época de Roosevelt para regulamentar as atividades dos bancos deveria ser reeditada.

O receituário para que se possa ” blindar ” a economia, são vários, e partem de diferentes opiniões, muitas delas ortodoxas e conservadoras. Mas o principal problema é desvendar o que ocorre na economia brasileira hoje, e termos a visão e a sensibilidade, para analisarmos os movimentos econômicos de outros países. Com efeito, um dos problemas da nossa economia, é a taxa de juros, que ainda é extremamente elevada, muito embora tenha declinado.

Outra questão preocupante, é o crescimento das Despesas Correntes da União, cujo aumento não se deve aos gastos com o social ou pessoal, e sim com as despesas com juros e encargos da dívida. A dívida pública federal interna, em valores reais, foi multiplicada por sete, entre 1995 e 2006, e claro, são remuneradas com as taxas estratosféricas de juros, aplicado no “Cassino Brasil”. Aliás, esse fator produz sim, um aumento da carga tributária, fazendo com que promova-se, superavit primários elevadíssimos. O governo central tem hoje um superávit primário em 12 meses de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) que poderia ser deduzido dos investimentos federais previstos no Projeto Piloto de Investimentos (PPI). Com isso, a meta de superávit do governo central para este ano seria de 1,7% do PIB.

Na verdade, os juros nesse patamar, impedem a exportação face ao câmbio hiper valorizado, alem disso, de nada adianta políticas de viabilidade setorial, para suprir as dificuldades de exportação de manufaturados. Temos que impulsionar o mercado interno, declinando as taxas de juros, aumentando as exportações, e por conseqüência, isso faria com que o câmbio pare de se valorizar gradativamente. Hoje o que nos sustenta em termos de câmbio, são os altos preços das commodities, mas isso não é saudável.

Não podemos ser apenas produtores de matérias-primas, precisamos deslanchar as exportações de manufaturados, e isso, evidentemente, tem muito a ver com taxas de juros e cambio. Fica patente que a autonomia do Banco Central é extremamente prejudicial, vez que engessa o poder decisório do Executivo, que já há muito tempo sabe o quanto perverso é, o patamar das taxas ditadas pelo pessoal do Copom sob a batuta de Meirelles. Mas não tem correlação de forças para intervir.

Fernando Rizzolo