Quando o que temos não basta

Uma das questões mais intrigantes do capitalismo, ou do consumismo, é a indústria da ganância. Não é à toa que a cobiça está prevista como uma transgressão, dos mandamentos de 6 a 10 ela está por último como a raiz de um mal. Certa vez ainda quando estudante de Direito, acompanhei um caso de furto de tênis. Seria um caso corriqueiro se no âmago daquele crime não existisse algo maior, algo indutivo. O réu eram um menino de 14 anos que havia furtado um tênis de marca; não houve agressão, o rapaz simplesmente adentrou num quarto de um vizinho numa comunidade pobre, e furtou o tênis.

Ao se dar conta da perda, o vizinho acabou descobrindo quem o havia furtado, e a polícia chegou enfim ao agente do delito. Menino pobre de 14 anos, pai desempregado, alcoólatra, mãe com problemas de saúde, o garoto foi encaminhado à antiga FEBEM. Ao analisar o caso como estudante comecei a refletir até que ponto não existiriam co-autores ocultos na execução daquele crime. Com efeito, o garoto, segundo relato, passava o dia inteiro assistindo televisão, cujo patrocinador do seu programa preferido era o fabricante do tênis.

A forma envolvente da propaganda, a quase lavagem cerebral do consumo, da realização da auto estima em possuir o tênis, era apregoado repetitivamente nos anúncios, numa linguagem produzida por especialistas em marketing, que tinham por objetivo criar um ambiente psicológico extremamente envolvente, fazendo com que a necessidade do consumo ou de possuir o tênis daquela marca por parte do jovem, fosse quase irresistível. Logo me perguntei se naquele caso criminal, não haveria dois componentes claros reprováveis além da ação delituosa do jovem.

O primeiro deles com certeza já estava previsto por Deus: a cobiça. Não restava a menor dúvida que o motivo desse tipo de lesão patrimonial tinha um componente já elencado na Bíblia, a vontade de possuir o que é do outro. O outro componente com certeza era a potencialização por parte dos especialistas em marketing, em ao utilizar poderosas técnicas psicológicas, induzir, criar e promover essa cobiça, essa inveja, ao ressaltar que o possuidor daquele tênis, era um jovem especial, diferente, melhor do que os que não o possuíam tal marca.

Quantas vezes não desejamos competir com os nossos vizinhos, nossos amigos, nossos irmãos, induzidos por uma vontade de ter o que eles possuem. Passamos muitas vezes a lutar por ter algo que nem sequer precisamos, algo que na verdade nem essencial é para o nosso dia-a-dia, uma grife, um carro novo, mesmo sabendo que o que temos ainda está muito bom. Quem seria o agente desse desejo quase irracional? Hoje há no mundo uma indústria multi-bilionária cujo propósito é a propagação sistemática da inveja, a aceitação do novo décimo mandamento, que proclama: “Tu cobiçarás.” O nome da indústria é Propaganda. Seu objetivo, como admite francamente B. Earl Puckett, Presidente da Allied Stores Corporation, é este: “Nosso trabalho é tornar homens e mulheres infelizes com aquilo que têm.”

A indústria da moda é um exemplo clássico, hoje você pode estar “in” mas amanhã poderá estar “out”, marqueteiros de toda sorte manipulam as mentes humanas em todas as áreas, inclusive na política, fazendo com que pobres eleitores se encantem com candidatos maquiados. Somos bombardeados pela indústria da propaganda a querer sempre mais, sempre o novo, sem limite. O remédio para combatermos essa influência ainda é a introspecção, o olhar para dentro de nós mesmos, o analisar o quanto temos e se realmente o apregoado é de fato necessário para o nosso bem-estar e felicidade.

Não resta a menor dúvida que a cobiça é uma doença da alma que destrói a vida em comum, as relações afetivas, as amizades, pois na sua essência está a comparação, a inveja, o desejo de ter aquilo que outro possui, o carro do outro, a mulher ou marido da outra, a grife do vizinho; o que acaba nos levando a depressão, a angústia, e a amargura. Estar contente com o que possuímos hoje, é a melhor forma de projetarmos a energia necessária para alcançarmos nossos objetivos. Talvez por isso a cobiça é o décimo mandamento, o sustentáculo e obstáculo mais difícil de ser transposto.

Ao olhar aquele menino caminhando para a Febem, compreendi enfim que os que o induziram ao crime eram os ” encantadores do consumo”, e que de uma forma ou outra, eram no meu entender, co-réus, muito embora sem se darem conta disso; talvez cegos pela estrutura sem limite do consumo, do capitalismo desvairado, ao fabricarem desapercebidamente vidas vazias distantes de Deus.

Tenha um Sábado e uma semana de paz !

Fernando Rizzolo

Os pobres aos olhos de Deus

Não faltarão argumentos contrários, em qualquer decisão econômica tributária do governo, em recuperar os 40 bilhões de reais evaporados da noite para dia, face a uma articulação maldosa entre PSDB e DEM, sob o fundo musical da Fiesp. Nobre foi a postura do governador Serra, ao atender o pedido do governo, e ao compreender da necessidade dos recursos que seriam aplicados à saúde

Como já comentei em um artigo meu, existe um elenco de impostos que poderiam ser utilizados para ” tapar o buraco” deixado pelo fim do imposto, mas o que gostaria de refletir aqui, é o fator ético que assola essa questão; diria que imposto, seja ele qual for, sempre passa por uma transferência de renda, do rico para o pobre, e quando falamos em assistir aquele que pouco possui, falamos também no próximo, na mão estendida, nas lições de cristianismo, de judaísmo, constantes nos livros espíritas, e em todas as religiões.

Não há como sobrepor argumentos de “eficácia”, “eficiência de gestão nos gastos públicos “, ” de rigor fiscal ” sobre os conceitos de ajudar o nosso semelhante em momentos de urgência social, que em judaísmo chamamos de Tsedaká (caridade). Vivemos num país onde existem 45 milhões de pessoas que vivem na linha da miséria, crianças que quando doentes são desassistidas pelo Estado, e isso ninguém melhor para falar do que a Cláudia Bonfiglioli, Presidente da Casa Hope, que por iniciativa própria criou a maior instituição de apoio a crianças com câncer no Brasil. Temos, além disso, hoje, 8 milhões de famílias que ainda vivem na idade da pedra, sem luz elétrica em sua pobres e humildes moradias, e só políticos de espíritos revanchistas, imbuídos dos mais mesquinhos princípios éticos, seriam capaz de arregimentar um Senado para golpear recurso aos pobres.

Saber que os recursos iriam para pobres, eles sabiam, tinham consciência; saber que existiam lideranças lúcidas como o governador Serra e Aécio também tinham ciência, porem, preferiram ignorar a tudo, num gesto pouco cristão. Riram, se confraternizaram com a derrubada, amaldiçoaram o imposto, beberam e brindaram a retirada de uma enorme quantia aos necessitados, viraram as costas para o povo pobre brasileiro, e foram para casa, no aconchego das suas famílias abastadas.

A energia ruim criada, pela essência ética do tributo derrocado, não deixará impune a consciência daqueles que ao se voltarem às coisas de Deus, irão se deparar com algo maior, num futuro divino acerto de conta. Pode parecer o texto, carregado de religiosidade, mas não de utopia, mas não de princípios éticos, prefiro-o assim, como um lamento na incompreensão dos atos que destituem os pobres de uma vida melhor. Tenho pena do povo brasileiro.

Fernando Rizzolo