A recessão nos EUA e seus reflexos no Brasil

Agora não são somente os críticos do desastroso governo Bush que alertam. Até os economistas ortodoxos, ligados aos círculos financeiros, prevêem que os EUA entrarão em recessão em 2008. Numa enquete publicada ontem, a agência de notícias Bloomberg constatou que a maioria dos analistas avalia que o PIB ianque sofrera retratação já neste primeiro trimestre. Goldman Sachs, Merrill Lynch e Morgan Stanley, poderosos grupos financeiros, também temem o pior, apesar das nuances nas análises entre os mais e os menos pessimistas – sem que haja nenhum otimista.

Motivos para temores não faltam, já que a situação da economia ianque é grave. Ela é totalmente parasitária, endividada, e está enferma há tempos. A crise imobiliária, no ano passado, foi apenas a ponta do iceberg, levando ao despejo milhares de pessoas. O dólar continua derretendo no mundo, abalando um dos pilares do império. O desemprego volta a bater recordes, atingindo 5% da população economicamente ativa em dezembro. As compras do Natal passado foram as piores dos últimos anos. O pessimismo toma conta dos estadunidenses!

Diante deste cenário sombrio, que aterroriza os donos do capital, quais os reflexos no restante do mundo? É certo que, mesmo combalida, a economia ianque ainda ocupa posição de destaque no planeta, funcionando como uma locomotiva. Caso entre realmente em recessão, toda a economia mundial será atingida – inclusive a brasileira. Um dos efeitos será a redução das importações, principalmente das dependentes commodities. Também poderá haver fuga de capitais, inclusive de investimentos diretos, e quebradeira de poderosas multinacionais.

Neste rumo, não cabe o excessivo otimismo de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, para quem o país está preparado para enfrentar as conseqüências da recessão nos EUA. “O Brasil está muito bem colocado hoje dentro do cenário internacional”. Melhor seria que os responsáveis pela política econômica já se debruçassem sobre medidas de defesa da economia nacional, como a adoção de mecanismos de controle do fluxo de capitais.

É certo que o Brasil hoje está menos vulnerável aos humores externos. Até setores críticos da política macroeconômica do governo reconhecem este avanço. O economista Paulo Nogueira Batista Jr., por exemplo, não acredita que a retração nos EUA paralisará o crescimento brasileiro. “A recessão americana teria que ser muito forte para produzir esse efeito… A menos que se instaure um cenário externo caótico, a economia brasileira continuará crescente. Mesmo que os EUA entrem em recessão”. De qualquer forma, é bom se prevenir!

Site do PC do B

Rizzolo: Repetindo um comentário anterior, tenho sempre dito que não há melhor forma de blindar a economia brasileira mantendo um mercado interno forte e aquecido. Infelizmente, a autonomia do Banco Central, em dissonância com o Executivo, que desenvolvimentista, impõe a Cartilha neoliberal, mantendo as taxas de juros a nível estratosféricos, impedindo o desenvolvimento de um mercado consumidor interno ainda maior. A expansão do mercado interno e a diversificação do mercado exterior oferecem cada vez mais ” blindagem ” a economia brasileira. Os juros no patamar em que estão apenas beneficiam os especuladores, a taxa de juros básica é usada para o pagamento dos títulos da divida pública aos grupos financeiros, um absurdo.

Paulo Nogueira Batista Jr: “Recessão nos EUA e expansão no Brasil?”

Cresce a cada dia o número de economistas americanos de renome que prevêem recessão nos Estados Unidos em 2008. Lawrence Summers, Paul Krugman e Martin Feldstein, por exemplo, consideram provável uma queda da atividade econômica. Outros, um pouco mais otimistas, prevêem uma desaceleração acentuada. Bem. Como se sabe, previsão de economista raramente é confiável.

Por Paulo Nogueira Batista Jr*

Nossa capacidade de antecipar o futuro é notoriamente limitada. Somos todos excelentes profetas – mas do passado, só do passado, sempre prontos a explicar por que as previsões não se confirmaram. É um pouco ridículo, diga-se de passagem, que alguns se aventurem a quantificar o risco de recessão nos EUA, atribuindo probabilidades de 30%, 50% ou mais à ocorrência do fenômeno. Até economistas brasileiros andaram entrando nessa seara.

De qualquer maneira, não há dúvida de que a situação nos Estados Unidos é muito delicada. A crise no sistema financeiro e no setor habitacional não está resolvida, como admite o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson. O dólar continua sob pressão nos mercados internacionais. Os dados de emprego e desemprego, divulgados na sexta-feira passada, produziram um certo choque, pois foram bem piores do que o esperado. Em dezembro, o nível de emprego ficou estagnado e a taxa de desemprego subiu para 5% (contra 4,4% em dezembro de 2006).

Intensificaram-se, nas últimas semanas, as discussões sobre o que fazer para conter a redução do nível de atividade e o aumento do desemprego. O instrumento de uso mais rápido é a política monetária. Uma diminuição adicional das taxas de juro é praticamente certa. Deve haver novo corte da taxa básica pelo Federal Reserve agora em janeiro. Taxas de juro menores tendem a estimular o consumo e o investimento domésticos e, via depreciação cambial, favorecem as exportações e encarecem as importações.

No entanto, existem limites para o relaxamento monetário. A inflação vem aumentando gradualmente nos EUA (nos 12 meses até novembro, a inflação dos preços ao consumidor é ligeiramente mais alta do que a brasileira). Uma redução muito agressiva dos juros poderia até desencadear o colapso do dólar e minar gravemente a confiança na moeda americana. Além disso, há dúvidas sobre a eficácia do instrumento monetário em um cenário de crise no sistema financeiro.

Por isso, alguns economistas vieram a público sugerir uma política fiscal expansiva, com cortes de impostos e aumentos de gastos. Como o déficit público nos EUA é relativamente pequeno (1,2% do PIB), existe espaço para alguma flexibilização fiscal como instrumento anti-recessivo. Resta saber se, em ano de eleição presidencial, com o Congresso controlado pela oposição democrata, o governo Bush terá condições de aprovar rapidamente um pacote fiscal eficaz.

Como fica a economia brasileira? Uma recessão nos EUA derrubaria a recuperação em curso no Brasil? Parece pouco provável. A recessão americana teria que ser muito forte para produzir esse efeito. As perspectivas para o resto do mundo, particularmente para os emergentes, parecem bastante positivas. O Banco Mundial, em projeção recém-divulgada, calcula um crescimento de 7,1% para os países em desenvolvimento. Além disso, o crescimento brasileiro recente está apoiado na expansão do mercado interno.

A menos que se instaure um cenário externo caótico, a economia brasileira continuará crescendo. Mesmo que os EUA entrem em recessão. Previsão de economista.

* Paulo Nogueira Batista Jr, diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).
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Rizzolo: Tenho sempre dito que não há melhor forma de blindar a economia brasileira mantendo um mercado interno forte e aquecido. Infelizmente, a autonomia do Banco Central, em dissonância com o Executivo, que desenvolvimentista, impõe a Cartilha neoliberal, mantendo as taxas de juros a nível estratosféricos, impedindo o desenvolvimento de um mercado consumidor interno ainda maior. A expansão do mercado interno e a diversificação do mercado exterior oferecem cada vez mais ” blindagem ” a economia brasileira. Os juros no patamar em que estão apenas beneficiam os especuladores, a taxa de juros básica é usada para o pagamento dos títulos da divida pública aos grupos financeiros, um absurdo.