QUANDO A GENTE SE ESQUECE

“Havia um rei muito bondoso que certa vez, ao passar por uma estrada, escutou gritos de socorro. Ele parou sua carruagem e viu uma mulher cercada por maldosos bandidos. Em um impulso de valentia, o rei conseguiu salvar a mulher. Ela trazia muito dinheiro e certamente aqueles bandidos não teriam misericórdia dela, e por isso ficou muito agradecida ao rei por tê-la salvado. Após aquele incidente eles começaram a se falar todos os dias. Conversaram muito, e a conversa era cada vez mais agradável, até que um dia eles perceberam que estavam apaixonados e decidiram se casar.

O casamento foi uma grande festa, todos se alegraram muito, principalmente o noivo e a noiva. E por algum tempo eles viveram em completa lua-de-mel. Mas passados alguns meses, a esposa já não tratava o rei da mesma maneira. As longas conversas foram rareando, até que praticamente eles não se falavam mais. A mulher já não tinha mais nenhum sentimento de gratidão pelo que o rei havia feito por ela. Mesmo quando o rei tentava puxar uma conversa, ela se mostrava fechada e indiferente.

Não suportando mais aquela situação, o rei teve uma idéia. Certo dia, quando a esposa saiu para dar uma volta, o rei mandou alguns homens, fingindo ser bandidos, cercá-la e ameaçá-la. Quando ela se viu em perigo, gritou desesperada, pedindo a ajuda do rei. Ele apareceu e a salvou novamente. Então ela se lembrou de tudo o que ele já havia feito de bom por ela, e voltaram a ter um bom relacionamento. Muito feliz, o rei confidenciou à sua esposa:

– Gostaria de pedir perdão pelo sofrimento que eu te causei ao te dar este susto. Na verdade fui eu que armei tudo isso, apenas para que você voltasse a me procurar e a valorizar o nosso relacionamento. Mas no fundo eu preferia que você tivesse me procurado sem que eu precisasse te causar nenhum sofrimento. Como vi que nada estava funcionando, tive que fazer deste jeito”

Assim é o nosso relacionamento com D’us. Recebemos Dele coisas boas o tempo inteiro, e tudo o que Ele espera de nós é que nos lembremos Dele durante o nosso dia. Mas a gente sempre se esquece…

*
Nesta semana lemos a Parashá Beshalach, que começa com a saída do povo judeu do Egito, quando o orgulhoso faraó, dobrado pelo peso das 10 pragas que destruíram completamente o Egito, finalmente deixou o povo judeu sair. Mas o povo judeu ainda não se sentia completamente livre, em suas cabeças eles ainda se sentiam escravos, tinham medo que os egípcios os perseguiriam e os levariam de volta ao trabalho pesado. E também D’us não havia terminado Sua justiça com os egípcios, e não havia vingado a morte dos bebês que foram afogados no rio Nilo. Então o que D’us fez? Endureceu o coração do faraó, fazendo com que ele se arrependesse de ter libertado o povo judeu. O faraó reuniu um enorme exército e partiu em perseguição deles. Os judeus de repente se viram presos no deserto, cercado por todos os lados. Diante deles estava o Mar Vermelho, atrás deles vinham os egípcios e seus carros de guerra, e dos lados estava o terrível deserto com todos os seus perigos. Os judeus ficaram desesperados e gritaram para D’us, como está escrito: “O faraó se aproximou; e levantaram os olhos os Filhos de Israel, e eis que os egípcios viajavam atrás deles. E eles temeram muito, e gritaram os Filhos de Israel para D’us” (Shemot 14:10). Então o grande milagre aconteceu: o Mar Vermelho se abriu diante dos olhos de todo o povo judeu, e eles atravessaram no seco. Quando os egípcios foram atravessar, o mar se fechou sobre eles, afogando todo o exército egípcio e terminando definitivamente com a escravidão do povo judeu.

Mas deste episódio surgem algumas perguntas: se D’us queria salvar o povo judeu e terminar Sua justiça com os egípcios, por que teve que “assustar” o povo judeu? Por que Ele não fez de outra maneira, de forma que os judeus nem mesmo vissem os egípcios os perseguindo? Além disso, o Midrash (parte da Torá Oral) diz que a aproximação do faraó, que causou um grande susto no povo judeu, foi mais importante do que 100 jejuns e rezas. Por que?

Para encontrar a resposta destas duas perguntas, antes de tudo precisamos entender o que é a Tefilá (reza), pois em geral temos conceitos muito equivocados. Por exemplo, uma das bases do judaísmo é saber que tudo o que D’us faz é com justiça perfeita. Portanto, se Ele nos mandou algum sofrimento, é porque de alguma maneira nós o merecemos. Então por que rezamos para que Ele tire de nós este sofrimento? Não é uma forma de tentar desviar o julgamento perfeito de D’us?

Sempre que passamos por alguma dificuldade na vida, imediatamente começamos a rezar. Mesmo aqueles que estão afastados da religião, quando surge alguma doença ou qualquer outro perigo de vida, encontram um tempo e uma motivação para rezar. Nos aeroportos e hospitais sempre há um lugar para as pessoas rezarem, pois em geral envolvem situações de perigo ou medo. Por isso estamos acostumados a pensar que a Tefilá é apenas um meio que podemos utilizar para nos salvar de algum perigo ou sofrimento e, se não houvessem sofrimentos, não haveria nenhuma necessidade de fazer Tefilá.

Ensina o Rav Yechezkel Levinshtein que é justamente o contrário. A Tefilá não é um meio, é um propósito por si só. A Tefilá é nossa comunicação com o Criador do mundo, é a nossa forma de agradecer e reconhecer tudo o que Ele nos faz de bom. Diz o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que a Tefilá é um dos pilares que sustenta o mundo. Quanto mais o ser humano reflete sobre o conteúdo das Tefilót e o coloca em seu coração, mais ele cresce no seu amor e no seu temor a D’us, e consegue reconhecer todas as coisas boas que recebe. Mas quando o ser humano se afasta das Tefilót e se esquece do seu Criador, começam a vir dificuldades e sofrimentos que o despertam novamente para a Tefilá. Portanto a Tefilá não é um meio para se salvar dos sofrimentos, ao contrário, o sofrimento é o meio utilizado por D’us para trazer o ser humano de volta para a Tefilá, que Ele tanto deseja.

Foi isso o que aconteceu com o povo judeu no Egito. Quando eles estavam passando por terríveis sofrimentos da escravidão pesada, voltaram seus corações para D’us, como está escrito “E os Filhos de Israel suspiraram por causa do trabalho, e eles gritaram. O clamor deles por causa do trabalho chegou até D’us” (Shemot 2:23). Imediatamente D’us iniciou a salvação do povo judeu, com grandes milagres, com mão forte a braço estendido. E D’us ficou esperando que o povo judeu continuasse com seus corações conectados com Ele, mas isso não aconteceu. Quando os judeus viram que seus sofrimentos estavam terminando, imediatamente começaram a se afastar de D’us. Então Ele utilizou o faraó como um “despertador”. O susto despertou o coração dos judeus e os conectou novamente a D’us, em um nível maior do que se tivessem feito 100 jejuns.

Com este conceito entendemos também que a Tefilá, ao retirar o sofrimento, não desvia a justiça perfeita de D’us. Os sofrimentos vieram justamente pelo desejo de D’us de que a pessoa se conectasse com Ele através da Tefilá. No momento que a pessoa volta a fazer Tefilá, não há mais nenhuma necessidade dos sofrimentos.

É justamente por isso que temos no nosso dia 3 Tefilót fixas, em momentos estratégicos, para que possamos nos manter conectados com D’us o dia inteiro. Começamos o dia com a Tefilá da manhã (Shacharit), antes de irmos ao trabalho e antes mesmo de tomarmos um bom café-da-manhã. No meio do dia, após algumas horas de trabalho, paramos novamente para alguns momentos de conexão espiritual durante a reza da tarde (Minchá). E no final do dia, quando voltamos para casa, mais uma vez nos conectamos com a nossa espiritualidade na reza da noite (Arvit).

Muitas vezes, quando coisas “ruins” acontecem em nossas vidas, questionamos por que D’us nos abandonou. Mas a Parashá nos ensina justamente o contrário. Se estamos passando por dificuldades, pode ser um sinal de que nós abandonamos D’us. Apesar Dele cuidar do nosso bem estar 24 horas por dia, nós estamos sempre ocupados com o nosso dia-a-dia. Tudo é mais importante, tudo vem antes da nossa conexão com D’us. Então antes de reclamarmos que D’us nos abandonou, é bom checarmos se não fomos nós que O abandonamos e O deixamos falando sozinho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz !!

Fernando Rizzolo

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